As mulheres de vinte anos não sabem brincar. Essas mulheres não freqüentam as luzes coloridas daquele seu inferninho preferido. Você não encontra mulheres de vinte anos assim. Elas estão ocupadas, acordando cedo para fazer yoga, trabalhar, pintar. As mulheres de vinte anos tiram muitas fotos, viajam muito, visitam muitos lugares e deixam você no mesmo patamar daquela estátua velha do museu. Elas agora gostam de arquitetura, design, direito. Querem salvar o mundo por trás de seus jalecos, apostilas, câmeras. As mulheres de vinte anos não têm tempo para homens como vocês. Não se importam de passar essa noite na sua casa, porque amanhã é outro dia e seu celular vai estar desligado. Elas não querem namorar, não querem alianças nos dedos, filhos para berrar no ouvido. Não há tempo para isso. Tudo na vida é rápido, é instantâneo, instintivo. Você tem planos? Elas têm. Elas mal dão conta dos tantos planos que fazem. E fazem juntas! Desenham meses, desenham anos em papel couché. Planejam viagens, passagens, fazem malas mais rápido que você. As mulheres de vinte anos não fazem café, bebem energético. Elas não precisam de amor, porque há amor de mais dentro delas. Essas mulheres dançam sem parar, bebem sem parar, sorriem sem parar. Não há vento que amenize o sol, não há areia para entrar nos olhos, não há onda na boca que não purifique a alma. Você se esforça tanto para não notá-las, tenta tirar os olhos, se distrair, tirar a atenção do corpo bonito, do cabelo brilhante, dessa vontade de viver que é maior do que você. As mulheres de vinte anos fazem questão de rir da sua cara, da sua vontade estampada na testa, desse seu pretensioso desejo de tê-las até de manhã. Pena, elas nunca estão de manhã. Há muito mais para conhecer, experimentar, outros caras para elas rirem. As mulheres de vinte anos não querem você, nem as suas propostas sujas, nem as suas promessas cor-de-rosa. Essas, você guarda para a sua mulher, sua namorada, seu desejo de moleque. Aos vinte anos, elas aceitam as brincadeiras na cama e fingem acreditar nas babaquices de amor eterno, do papo furado que é o romantismo exagerado, porque estão atentas mesmo é em embarcar nelas mesmas. Elas têm livros, roupas curtas, amigas bonitas, quadros e homens para todas as horas. Uma história inteira lançada em alto mar com o único intuito de navegar para onde a maré levar. As mulheres de vinte anos são inatingíveis e sabem disso. Elas carregam em suas cabeças interesses variados, vontades infinitas, amores selados, corrompidos, fragmentados. Dá, sim, para se amar devagarzinho assim. Quando se tem 20 anos, tudo deve ser muito bem saboreado.

 

 

(baseado nas mulheres de vinte anos, segundo o Chalaça: “Choram demais, vigiam-nos o tempo todo e querem muitos presentes”)