Este texto faz parte da série: “Palavras” 

Eu devia ter por volta dos meus quase-vinte anos quando me apaixonei perdidamente por um homem feio. Feio foi o jeito que arrumei de chamá-lo para não me deixar levar pelas consequências de um amor não correspondido – essa coisa brega que a gente vê em novela, filme e livros de mulherzinhas adolescentes. Mentia para mim mesma diversas coisas que até hoje nem consigo lembrar de tão absurdas que eram. Anos depois de toda a saga que me rendeu traumas amorosos e personalidade defensiva, reencontrei parte do mundo dele tomando cerveja no bar que sempre vou. Conversamos sobre coisas atuais até chegar no tenebroso passado de quem amou demais e recebeu de volta um buraco de silêncio. Resolvi fazer o que poucos fazem: me conformar e procurar uma resposta inteligente que solucionasse todos os meus questionamentos. Encontrei referências…
Tem uma cantora que gosto muito, certamente deve usar vestido para cantar, e que em um trecho de música fala para o seu companheiro algo como: “já que não te tenho por perto, vou tomar um sorvete para alegrar o meu dia”.
Achei divinamente bonito esse negócio de ir tomar sorvete para preencher ausência. Desde então, tomei por lei. Não me entupi com sorvetes, mas engoli frustrações ao invés de mantê-las no caminho entre a boca e o coração. Fica mais fácil conviver com um não-amor depois que aprendemos a digerir todas os nossos impulsos de mentir para nós mesmos. A moça de microfone na mão soube resolver a ausência momentânea de seu homem que não veio na mala, da forma mais simplista de se distrair. Quero ser assim, ter a sensibilidade de ignorar todos os fatos ruins, com programas singelos.

Distração, segundo meu coração (já que hoje o dono da razão não está na minha bolsa) , é substituir algo ou alguém em nossas mentes por tempo indeterminado; dar atenção a outrem; desviar-se de si mesmo.

A foto é do Lucian Lanteri, dono de uma galeria repleta de pessoas encantadoras.