Pediu-me um texto como condição de troca. Hesitei. Como escrever para um homem que quer ser Assis? Tantas vezes escrevi para outros, escrevi como forma de pagamento, escrevi para cumprir prazos e slides em brancos. Escrevi no ônibus, com a mão trêmula e caligrafia enigmática. Escrevi sobre pessoas, músicas, empregos, pepinos em conserva, filhos e casamentos. Escrevi depositando toda a minha força, o meu sentimento, meus amores contidos em blocos de notas. Transformei-os em texto que era para não ocuparem mais minha cabeça.

O homem que quer ser Assis me deu tempo de sobra para escrever, mas tal pedido bateu e ficou. Como seria o texto que daqui uns anos, quando finalmente achasse que ele assim merecesse, eu lhe daria? Seria sobre ele? Eu escreveria algum dia sobre ele, mesmo que o caminhar das coisas indique que escrevemos para retirar da cabeça o que não sai por vontade própria?! Ele lembraria o motivo do texto?

Corro para o email. Procuro meu conselheiro, a resposta de meu último texto para aprovação, a prosa que não publico, que não distribuo. Nenhuma resposta. Mais uma prosa sem resposta. As poesias de meu amigo ganham asas, as respostas de meu conselheiro se emudecem. Perco a vontade de escrever para o homem. Penso se vale o esforço, a saga, o tom. Lembro-me de uma conversa anterior sobre livros, sobre autores e personagens. Quem é seu personagem, Sofia? Você mesma? As várias mulheres que existem em ti? As identidades que você rouba, como Clarice descreveu em “Encarnação Involuntária”?

A pergunta que paira no ar e na penumbra do quarto questiona se há uma Sofia capaz de escrever para si mesma, antes de escrever para homens que querem ser Assis.

A foto é do (quase) jornalista e (grandíssimo) fotógrafo Eduardo Macarios.