De pernas cruzadas, em cima da cama, ouvia silenciosa tudo o que ele pedia para que fosse esclarecido. Ele era um cara como outros caras que passaram, mas com a única diferença de que há dois dias estava se tornando verdade. Uma verdade gostosa com roupas pelo chão, uma verdade musicada, de mãos dadas e pés doloridos. Estava silenciosa porque, naquele momento, tudo em sua vida estava sendo remexido, virado do avesso, analisado, questionado, avaliado por um homem que até então era bom e agora se tornava o rei da verdade. O pai do bom comportamento, da boa índole, procurador de dignidade. Invadida. Era esse seu novo estado de espírito: invadida. Silêncio era sua forma de organizar as ideias que sobem até os dentes em um impulso de se justificar. A sorte de se ter lábios colados para aparar as palavras e a voz.

Ele termina, olha nos olhos esperando respostas que não o pertencem. Ela direciona o olhar para o lado, levanta desfazendo as pernas cruzadas e ele interrompe o movimento ao segurar uma das coxas, ela tenta novamente seguir e ele permanece impedindo. Olhos brilhando, boca selada, olhos ainda mais brilhantes, língua tensionada, olhos, brilho, boca, olhos, água, choro.

Se o silêncio também fala, o choro berra.