Chico, talvez você não saiba. Na verdade, tenho certeza que você não sabe, mas no seu show havia uma menina aos prantos. Era o seu primeiro dia aqui, Chico, na cidade natal de sua mais nova amada, sua primeira noite de espetáculo com o novo álbum lançado ao redor de uma modernisse curiosa de ver saindo de você. Você, um homem difícil, de expressões pouco simpáticas aos jornalistas, jeito misterioso de quem implora por um pouco menos de atenção do país inteiro. Chico, permita-me lhe dizer que o senhor está devidamente errado? O senhor não deve ter dado a devida atenção que a menina ao meu lado, em prantos, merecia ter. Chorosa de emocionada, como quem nunca imaginou vê-lo tão perto, mesmo que assim tão longe no segundo balcão, ela contentava-se em contemplar o cucuruco de sua cabeça e passava o tempo do show encaixando seus versos nas partes não preenchidas da vida.

Chico, o senhor devia se sentar nas poltronas do Guaíra e descobrir a sensação de sentir frio na barriga por quem está no palco. É deliciosamente maravilhoso! Deveria aproveitar e notar como é bonito pedir para acender os refletores em “De Volta ao Samba”, enquanto exatamente se nota a fumaça por entre os refletores do palco do teatro. É bonito, Chico. É quase poesia. Assim como a menina do meu lado notou, tenho certeza que notou, mas ainda não descobriu que foram esses refletores e os seus pedidos que a fizeram chorar tão efusivamente neste início de show. Ela é apenas uma menina, sabe? Não entende esse negócio de associação, de transformar detalhes em imaginário. É tão nova quanto sua amada, tão pequena quanto.

Chico, acho que existe uma música sua que mexe com algo nesta que senta ao meu lado. Mexe no peito, como um machucado ou algo que nem mesmo ela saiba o que é, mas que a fez chorar ainda mais quando soaram as primeiras notas de “Futuros Amantes”. Creio que ela tenha um. Talvez um amor passado, que então devesse se tranformar em futuro em sua mente confusa de menina sem vivência.

Chico, sou feliz com ela mesmo sem conhecê-la, mesmo a tendo ao meu lado somente durante o show. Acho bonito ver pelo canto de olho, assim de relance, a emoção dela ao acompanhar seu dueto com Wilson das Neves. Sei que seu ouvido se apura para a percussão, porque existe um dedo que balança em cima da perna no mesmo ritmo que o acústico. Essa menina é singular neste teatro, Chico. Deveria o senhor contemplá-la aqui ao meu lado. Precisa ver como está orgulhosa do espetáculo, do repertório, da sua postura e sua ordem musical sempre levando ao caótico e à ordem musical novamente, assim sucessivamente, enquanto esperamos sentados o refrão que nos dirá alguma coisa.

Enquanto isso, ela carrega livros seus e de outros relacionados a você. Para um dia esbarrar em alguma esquina da cidade, até seu último dia na capital, na esperança de conseguir um recado em caligrafia pesada que lhe fará, assim silenciosa e sem gritos tiéticos, chorar sorrindo até sua proxima vinda.