Todos somos inocentemente canalhas. Foi isso que eu quis dizer para o meu irmão, enquanto ele tentava enganar a família toda de que não estava no lugar que estava, com a mulher que estava. Pior, maninho, todos somos silenciosamente canalhas e, por isso mesmo, concordo plenamente com sua atitude corajosa de não se privar e fechar os lábios para aqueles que perguntam demais. Há muito na vida que deve ser guardado por chaves que não existem.

É por isso que quando me surgem tipos que tentam adentrar meu infinito, se cansam por procurar demais e continuar insatisfeitos com o que descobrem. Não, não é possível conhecer alguém tão bem. Não é porque dou na primeira noite, que dou também minha vida de mão beijada. Existe certo limite, uma linha que torna a dócil menina em mulher misteriosa. Misteriosa só porque não escancaro o meu manual de uso, não libero para download a versão completa e você fica sempre com a beta: Para experimentar.

Se gostar, leva pra casa e diz que é sua, mesmo sendo só metade. Se não gostar, reclamar não é luxo de poucos. Não costumo ser completa nem para mim mesma. Não existe insistência que me convença a ser inteira sua e quanto mais repetitivo fica, mais sou convencida a não ser de ninguém, mas ser essa afetuosa dúvida que fica na cabeça dos que saem de mim insaciáveis. É preferível ser tranquilamente canalha. Como um elogio, como Carpinejar um dia disse, impossível domesticar, impossível conter, impossível fugir. “Canalha é uma interrogação gostosa”.