Acredito que a minha ficha só caiu quando me vi sentada no chão de uma sala vazia, em um apartamento microscópico, no centro da Vila Mariana, em São Paulo. Eu só tinha a minha almofada de coração, o notebook no colo e uma garrafa de água do lado. Já era tarde, eu tinha terminado todos os meus freelas e estava matando tempo, esperando Marcelo chegar com as compras do mercado. Acho que a ficha caiu justamente por não haver mais nada a fazer e nem pensar naquele momento. Estávamos juntos em São Paulo, como planejamos fazer há quatro anos atrás, ainda na faculdade, sonhando com um futuro promissor. Era realmente algo fantástico se aventurar assim, mas especialmente naquele dia me dava um puta medo encarar a sala tão vazia.

Eu e Marcelo éramos colegas da faculdade, jeitos totalmente diferentes, áreas do curso completamente distintas, apesar do gosto por cultura ser o mesmo. Eu sempre me dei bem na área empresarial, mesmo não gostando muito, e ele, já mais descansado, seguia rumos mais alternativos e atrativos da profissão. Sempre fomos melhores amigos, até o dia que ele me elogiou de óculos e all star. Então, percebi que mais ninguém aguentaria me ver assim e resolvi investir por achar que ele talvez gostasse de verdade de mim. A viagem para São Paulo saiu do papel e nos tornamos, enfim, um casal.

Nosso apartamento demorou a ser nosso, porque a vida na capital custou mais caro do que nós dois imaginamos. Foram alguns meses morando na casa da Tia dele, procurando emprego, procurando teto, até achar algo que pudéssemos pagar com um salário tipicamente dado a quem vem de outros estados para tentar a vida na grande metrópole. Por sorte, tínhamos alguns contatos e um portfólio apresentável. Logo alugamos o nosso lar microscópico e recheamos de… Bem, nós mesmos, porque simplesmente não havia mais orçamento para mais nada.

Ainda sem televisão (para quê isso, mesmo?!), sem geladeira (tem água gelada na lanchonete de baixo) e sem cama box (amor no chão é mais gostoso), tendo que se virar com colchão, almofadas e coisinhas que foram sendo doadas aos poucos pelos nossos novos colegas de trabalho e familiares comovidos, montamos tudo do jeito que achamos mais confortável. Ainda que inúmeras vezes tenha batido um arrependimento do cão, superamos o vazio de uma casa sem móveis.

Na porta, eu mesma fiz uma placa enquanto passava um final de semana na cidade de meus pais: “O nosso rock se mudou”, singela homenagem à uma música da Nina Becker. Na janela da cozinha, luzinhas de Natal. No quarto, fotos na parede e as publicações dele enquadradas. Fiz bem meu papel de mulher. Dei vida a alguns cantos e me esforcei até mesmo em ficar acordada esperando ele trazer as sacolas de compras, com comidas e bebidas que podiam ficar fora da geladeira. Fiz tudo certo, ou quase isso, para que essa nossa relação de hoje fosse assim, tão clara e tão certa como é.

Hoje, eu estou sentada na mesma sala e no mesmo chão, mas não porque ainda estamos sem móveis, mas porque sempre gostei de encostar as costas na parte de baixo do sofá. A garrafa de água que está ao meu lado acabou de sair da geladeira e a sala, já com mesinha, está com o cheiro do macarrão que eu fiz pro jantar. Eu continuo a te esperar voltar do mercado todas as semanas, só para ficar um pouco do teu lado e perguntar como foi seu dia, porque eu também tenho um dia inteiro para contar e só então perceber que tive um dia. Como se seu ouvido fosse o meu e eu precisasse ouvir as suas e as minhas histórias também.

Foi difícil tudo que passamos, nem chegou a passar pela minha cabeça que ficaríamos tanto tempo nessa cidade, tudo sempre pareceu tão… Passageiro. Só foi acontecendo, acontecendo, e então todo mundo acreditou em nós dois. Eu acreditei em você, você acreditou em mim e então o nosso rock parou de se mudar e, enfim, ficou. Ficou na cidade nublada, que só nós dois entendemos porque é tão legal de morar. Ainda mais sendo perto suficiente para ir a pé até a casa do Mancha ouvir alguma banda boa da nossa terra. A terra sulista em que você nasceu e onde fui criada. Para onde voltamos vez ou outra e passamos dias agradáveis com nossos pais, para então novamente voltar a encontrar a nossa casa, a nossa vida, o que construímos juntos e ninguém mais tirou.

Eu me assustei, Marcelo, confesso que quis largar tudo. Ia deixar a placa na porta, teus quadros e prêmios no quarto, a geladeira nova vazia, mas eu tentava sempre lembrar que se não fosse você, eu jamais teria encarado essa aventura maluca. Te largar no meio seria desperdiçar todo seu esforço em me convencer desses feitos de amor. Amor por nós e pelo nosso trabalho. Então eu voltava. Mesmo sem ir, eu voltava. Continuava inerte na cama, só imaginando você pedindo para eu ficar e eu ficando, ficando… Até dar no que deu.

O que deu é que eu e Marcelo éramos felizes dentro de um apartamento pequeno que não poderia abrigar melhor o nosso sonho. Cheio de garrafas de cerveja, livros, CDs, revistas e almofadas coloridas, pratos com estampa retrô, geladeira com letra do Simonal na porta e recados de amigos nos azulejos da cozinha. Tudo muito com a nossa cara. Esse ano até árvore de Natal teve! E as luzinhas na janela continuam lá… Firmes e fortes!

Mas agora já é virada do ano e teremos que passar separados, porque eu tenho um freela em Campinas e Marcelo tem plantão na redação. Dessa vez, não vamos poder fazer amor durante a virada, enquanto ouvimos a cidade gritar e o céu explodir por inteiro em mil cores. Mas não há problema algum, porque eu continuo a sonhar longe ou perto de você e cada parede desse lar guarda o que fomos nós dois durante este ano. Podemos sentar, durante qualquer dia do ano, no mesmo chão em que caiu a minha ficha pela primeira vez e relembrar tudo o que fomos juntos. Feliz ano novo, Marcelo, meu grande amigo e amor. Eu logo volto para casa!