Foto: bernardocople

Antes de se perder na multidão colorida, antes de sair e antes de me beijar a testa, ele tentou amenizar a dor com o trecho de uma música que eu sempre gostei, mas nunca havia percebido o tom de tristeza que ela trazia. “Todo carnaval tem seu fim” – e então partiu levando um punhado de confetes do meu coração. Bastou isso para eu me sentir em preto e branco e ter meus pensamentos enrolados feito serpentina, enquanto palhaços, super-herois, policiais e dançarinas de cabaré circulavam ao meu redor.

Ele me deixou em pleno mês de fevereiro, no carnaval em que me vesti de bailarina e sorri com batom rosa um sorriso forçado de quem não queria perder a alegria que um carnaval traz, mas quase podia sentir o coração rasgando feito a bandeira da madrinha da escola de samba.

Era uma multidão de pessoas pulando marchinhas, enquanto eu continuava parada. Cerveja respingava em mim, cheiro de lança-perfume no ar, homens vestidos de mulher, meninas vestidas de odaliscas. Eu continuava parada, sendo somente mais uma bailarina de saia armada.

Demorei a reparar que você não era minha avenida. Você era bloco. Bloco de rua, como outros milhares que existem. A avenida era eu. Só desfilava o Pierrot que eu quisesse, só tocava a música que eu quisesse ouvir. Não era a sua bateria que me colocava para dançar, era o meu peito e  era com a batida dele que eu iria pular também. Não, amor, não é todo carnaval que tem um fim. A vida toda é um carnaval.

Um desfile de pessoas rindo da solidão, se abraçando e cantando como se amanhã fosse só mais um dia, sem compromissos, sem trabalho, sem visitas em cima da hora e louças para lavar: Como todo dia deveria ser.

Um desfile de pessoas escondidas em fantasias, das mais diferentes figuras, escondendo suas vergonhas, travestindo identidades coloridas, para serem quem quisessem ser: Como já somos.

Sempre sobra confete na calçada, cerveja na saia da colombina, anjo bêbado andando com a asa quebrada e palhaço sem nariz vermelho. Sempre sobra uma máscara no chão, para você recolher e levar para casa. É com ela que a gente põe nosso bloco na rua de novo.

Se o amor é carnaval, eu sou avenida.