Eu acordei com algum movimento brusco que eu mesma fiz com a perna, anunciando que o sono pesado se aproximava e eu tentava resistir bravamente. Acho que ele entendeu o recado, porque logo aumentou consideravelmente o volume da música que tocava no carro e eu tive uma súbida vontade de levantar a cabeça do colo dele e lançar aquele olhar de quem pede para ser deixada em casa, no quarto, na cama, coberta de edredom e beijos quentes.

Ele entendeu e assim fez. No caminho, digeri a frustração que me fizera discutir ao ponto de me cansar tanto que dormi ali mesmo, no colo e no carro dele. Mastiguei bem, que era para não cuspir algumas verdades nele, que nunca teve culpa de nada e só lutou contra seus próprios anseios para me compreender. Mal sabia que eu era incompreensível, uma espécie de mulher que apenas se deixa ir, sem implorar para que fique e sem saber por que isso deve ser feito.

Frustei com a pílula que acabou bem agora que nos vemos novamente, com a calcinha nova que comprei, a depilação diferente e o bronzeado mais ou menos dourado que não puderam ser expostos à você, mas que foram inicialmente dedicados aos seus olhos e suas mãos. Frustei pelos meus seios que sempre foram iguais em decotes invariáveis terem sido os únicos escolhidos para suportarem seu rosto e recolherem suas lágrimas em uma posição torta na tentativa de se tornar abraço. Você podia ter escolhido minha barriga, ao menos nesse quesito nós nos permitiríamos nos aventurar mais.