Faz tempo que eu tinha vontade de escrever sobre a cidade dos meus avós e acho que algumas vezes eu bem tentei, mas não consegui desenvolver algo que mexesse realmente com aquela sensação de nostalgia que sempre achei obrigatório em temas como esse. Não sei o que essa minha última visita teve de diferente, já que tudo costuma ser sempre igual por lá, mas resolvi escrever, inspirada na viagem de fim de ano do meu querido colega de trabalho Luiz Gustavo.

A cidade dos meus avós, Miguel Pereira, fica no interior do Rio de Janeiro e é pouco conhecida pelos cariocas. Região serrana que nos idos tempos em que a tuberculose era chamada de “peste cinzenta” abrigava diversos doentes em chácaras e casarões chiques para “respirar ar puro”. Bem, a medicina evoluiu, os índices de tuberculose diminuiram e Miguel Pereira cresceu sem qualquer planejamento. Virou uma cidade pequena, caótica, sem sinaleiros e com muitos motoqueiros de havaianas. Além, é claro, de uma grande parte da família Ricciardi. Motivo pelo qual meu pai chama a cidade de “hospício a céu aberto”. Carinhoso, não?!

Ali, passei todas as férias da minha infância, assim como minha mãe, ao lado dos meus irmãos e da minha prima, desbravando terrenos abandonados, ruas de barro e o tal “centro da cidade” com uma independência nunca imaginada na capital do Rio, onde morávamos. Vida simples sem computadores, video games e televisões. Respirando o tal “ar puro” da cidade. Com o tempo mudamos para Curitiba, crescemos, as visitas se tornaram mais raras e nossas férias já eram mais compactas. O que significa também que as 12h de estrada já necessitavam de algo a mais além de saudade. Dessa vez, resolvemos visitar a cidade no carnaval, afim de fugir das praias lotadas e dos desfiles na televisão.

A cidade de Miguel Pereira é um local caótico, como já disse, mas guarda tudo aquilo que resume minha infância, meus costumes e minhas maiores lembranças de família. Andar no seu centro sem sinaleiros, com fachadas dos anos 70 e 80 e subir a ladeira do bairro da Alegria faz meu coração viajar para um tempo que não volta mais. Foi na casa da minha bisavó, a casa da Alegria, que eu pisei na grama descalça, ralei o joelho muitas vezes, comi fruta direto do pé e pintei o rosto com urucum para achar que era índio. Na casa da Alegria, a família toda se reunia e as crianças almoçavam juntas no sofá, já que a mesa ficava para os adultos.

Visitar ela agora não é mais a mesma coisa, mas sempre aperta o peito quando eu chego em frente ao seu portãozinho azul e leio “Nosso Lar” na porta de entrada. Eu posso morar na capital do Rio, em Curitiba ou em Florianópolis, que sempre me sentirei em casa quando chegar ali. Não poderia existir outro nome para aquele lugar.

Mas não é por isso que a viagem ficou menos divertida. Com a monotonia que vem com a idade, meu avô começou a se aventurar na cozinha e, desde então, nosso programa familiar é experimentar o seu prato clássico: O Macarrão Puta Merda. Calma, deixa eu explicar! Minha família é uma mistura de português com italiano, nascida no Rio de Janeiro. Agora, calcule o nível de palavrões ditos em um almoço de domingo. Calculou? Agora eu vou explicar o motivo do nome. De acordo com meu avô, sua especialidade gastronômica leva esse nome porque ou você come e diz “Puta Merda que macarrão bom!”, ou diz “Puta Merda que macarrão ruim”. Simples, não?! Um clássico da família.

Mas a família Ricciardi não é só palavrão, é história também. O jantar carnavalesco trouxe junto uma viagem ao tempo do Império enquanto minha mãe e minha tia separavam documentos dos meus bisavós, tataravós, etc. Cartas assinadas por Dom Pedro, à pena e em gigantes papeis carimbados. Documentos do tempo que o país se chamava Estados Unidos do Brasil e a ortografia continha acentos nas mais variadas palavras. Um papo que vai pra lá de um post…

Carta assinada por Dom Pedro

No fim, não desbravei nenhum terreno abandonado, não pintei a cara com urucum e nem me encontrei com a minha prima, minha melhor companhia na infância, mas… “Puta Merda”, que viagem boa!