Arrumou a franja que caía nos olhos com um brusco mexer do pescoço. Estava esperando os carros passarem para atravessar e entrar na estação de metrô. Enquanto isso observava alguns garotos do outro lado da rua, com uniformes do colégio e mochilas nas costas. Faziam embaixadinhas com uma latinha, uma diversão barata na volta para casa. Era fim de tarde e ela ainda tinha aulas de um curso pela frente, mas percebeu que seu cérebro pouco estava funcionando aquela hora e que seu corpo já ensaiava relaxar em algum colchão. Ainda esperando os carros, cogitou em qual iria dormir.

Notou que estava sendo insensível, começou a divagar sozinha sobre suas relações e deixou passar três chances de atravessar a rua. Não perceberia se um amigo do trabalho não saísse no mesmo horário e parasse ao seu lado, como fez, desconcentrando-a.

– Ta indo pra casa?

– Não, para um curso.

Quem dera. Sempre imagina as pessoas do trabalho indo para casa, encontrando suas famílias, ligando a televisão ou lendo um livro. Como era bom ler um livro. Atravessaram a rua, entraram na estação, cada um seguiu para uma direção e ela, sozinha novamente, observou conversas alheias, balançou mais vezes a cabeça para tirar a franja dos olhos e não percebeu que continuava pensando em qual colchão iria dormir. Sentou-se e logo em seguida foi empurrada contra a janela por uma gorda que sentou ao lado. Direcionou-se para a janela e acompanhou a rápida passagem pelas estações.

Não era possível enxergar muito bem quando o metrô passava pelos túneis. Certas pessoas sentiam enjoo, mas ela não. Ela gostava e se contentava em imaginar que eram aceleradores de tempo. Dessa forma, passou a imaginar que a rápida passagem entre uma estação e outra era uma rápida passagem por alguns específicos momentos de sua vida. Fatos, pessoas, lugares, uma retrospectiva que ela se esforçava em pensar e relembrar à medida que o metrô acelerava.

Obviamente, a tarefa não deixava de ser um passatempo para distrair-se da demora que era chegar ao curso. O caminho era longo e olhar as pessoas aparentando cansaço não a estimulava. No entanto, pouco gostou também das coisas que lembrou e decidiu pegar um livro. Acabou dormindo, ainda espremida entre a janela e a gorda, pouco confortável.

Acordou com sua mãe ligando e anunciando que iria ao cinema com seu pai e voltaria tarde para casa. Desligou, pensou, esqueceu o curso, esqueceu a canseira e ligou para um dos colchões. Dois, três toques e desligou. Ele retornou, ele sempre retornava.

– Quer ir lá pra casa?

– Quero. Te busco em qual estação?

– Sé.

Pediu licença para a gorda e saiu. Mais uma noite de curso abandonada, penaria um pouco para recuperar nas provas, mas isso tudo pouco importava naquele momento. Saiu da estação e colocou a jaqueta de couro azul que carregava na bolsa. Fazia frio e garoava, tempo que parecia ideal para se aconchegar nos braços de outra pessoa.

Esperou pelo Sandero branco ainda ao lado da entrada da estação, encostada na mureta. Pensou se era esse o colchão certo de chamar. Pegou uma seda na bolsa caramelo, procurou pelo saco de fumo e começou a enrolar um cigarro com a mesma sutileza que enrola todos os seus colchões. Com eles, ela conseguia ser delicada e agradável ao ponto de convencê-los de qualquer coisa. Enrolava o fumo e enrolava romances. Essa era realmente uma ótima comparação.

Todos sempre gostaram de como ela fazia cigarros de palha bem. Deixava fininho, com o fumo bem apertadinho, mesmo que precisasse parar para tirar a franja dos olhos. Tudo isso dependia de alguns minutos em paz. Ela não costumava conversar enquanto fazia isso, mas pensava e pensava muito. Pensava longe, era terapia. Enrolava o fumo, enrolava os colchões, os romances, os pensamentos, tudo junto ali naquela seda. Passava sua doce saliva e fumava.

Enchia os pulmões disso tudo, tragava o mundo e soltava quando achava que deveria soltar. Ficava vazia e só sossegava quando puxava para dentro tudo novamente. Da mesma forma que fumava, vivia.

O Sandero chegou no momento em que o cigarro acabou. Ela respirou fundo, jogou a piteira no chão, entrou no carro e deu um beijo em seu colchão escolhido.

– Que bom que está aqui. Pensei em você o dia inteiro.

 Mais uma foto do meu querido e talentoso amigo Eduardo Macarios