Nunca fui muito fã de chocolate, exceto nas semanas de tensão e angústia. Eu era realmente  invicta ao mais cremoso e mais saboroso dos chocolates. Meu pai me dava, minha mãe me dava, minha irmã trazia da Europa e de todos eu escolhia um quadradinho para experimentar e colocar “um doce na boca” depois do jantar. Sempre foi assim, até o dia que eu conheci um cara e uma caixa.

O menino era irmão mais velho de um amigo meu, cheio de querer saber muito de mim. Soube o suficiente para entender que eu não era flor que se cheirasse e que não era mulher que se investisse flores e bombons. Nunca fui também do tipo mais romântica, o que dificultava qualquer demonstração de carinho exacerbado, mas para mim isso nunca foi problema. Achava que era solução. Que tipo de mulher ficava feliz só porque você comprou aquela cerveja aguadinha que ela adora, ao invés da amarga de garrafa verde que só você aguenta? Essa era eu e sempre achei que ser assim ia facilitar algo.

Mas o cara não era desses, que traz flor todo domingo e te escreve mil cartas de amor sem nem ainda existir amor suficiente para preenchê-las. Ele não me dava nada e dividia a conta do cinema, me deixava sem o peso de ter que amar, gostar, idolatrar. Me levava em lugares bons, programas tranquilos e sabia sentar do outro lado da mesa sem dar piscadinhas apaixonadas. Um cara bacana… Que um dia pensou que me agradaria com um chocolate e comprou.

Foi no estacionamento do cinema, em algum dia que provavelmente eu não parava de falar freneticamente, que ele me entregou a caixa. Era bege, com uma fita marrom e pesada de tanto chocolate. Eu não lembro qual cara fiz e talvez prefira não lembrar. Sei que agradeci efusivamente e guardei a caixa para comer depois. Guardei até o dia que ele me deixou.

A maneira com que tudo acabou é outra coisa que eu não me lembro e também não me esforço em lembrar. Sei que finalmente peguei a caixa em cima da mesa e com os olhos cheios de lágrimas comi o primeiro chocolate. Sem parar, comi outro e outro e outro e descobri um sabor diferente daquele que sentia em todos os chocolates que comi durante minha vida. Era um gosto que preenchia o que faltava em mim. Era amor, era todo o amor dele ali dentro, um tempero que me faltava e faltava muito.

Não comprei mais o chocolate com medo de não ter mais o mesmo gosto. Apesar de triste, fiz daquele momento a nossa despedida e fui feliz por ter algo dele ainda comigo. Guardei a caixinha, que às vezes posso jurar ainda ter o cheiro da nossa história. De todos os chocolates do mundo, o melhor é aquele que um dia foi recheado com amor dele… Sem nem ao menos ele saber disso.