Deixa-me contar para vocês. Eu tenho mania de guardar pessoas em alguns lugares inusitados dentro de mim. Eu ainda não descobri exatamente onde ficam esses lugares, mas parecem esconderijos no meu cérebro. É isso, eu desconfio que elas fiquem escondidas em algum canto desta minha massa cinzenta. Inevitavelmente as mantenho ali enquanto me distraio com outras. Depois de um tempo, vou lá resgatá-las, me reaproximo, me interesso novamente, renovo as expectativas e vejo um novo potencial de felicidade depositado nelas. Não sei exatamente em que momento eu decido guardá-las ou buscá-las, mas surge como algo instintivo.

Nessa brincadeira, uma pessoa não aceitou ser guardada. Ainda estou tentando descobrir se isso foi mesmo um desejo dela, ou algo que surgiu dentro de mim sem grandes protestos. No fim, essa pessoa permaneceu ativa na minha vida e toda vez que tento jogá-la para escanteio, não consigo. Eu não consigo, por exemplo, ficar sem responder e me fingir de parede por muito tempo. É mais forte do que eu e gera desconforto quando tento fazer, parece algo forçado. Em tanto tempo de enrolação, ela já notou que basta falar palavras de conforto para contornar minhas fugas e me manter por perto. Ainda não entendi se é o abraço quente, o cheiro, a barba no meu corpo, os dentes grandes ou o espírito tranquilo que me fazem sentir saudade quando estamos longe. Essa é uma dessas pessoas que eu tento, tento, tento esconder de mim mesma, mas logo chega segurando na minha cintura e falando com uma voz mansa no ouvido que acaba com qualquer resistência racional.

Ainda não sei como lidar com isso e sigo empurrando com a barriga, na esperança de que o mundo resolva no meu lugar. Sou péssima para decidir o que fazer com as pessoas que enfio na minha vida, talvez por isso o tal do esconderijo. Eu vi esses dias no GNT, você vai rir agora, mas era uma matéria sobre as pessoas que não sabem tomar decisões. O tal programa dizia que existe mesmo uma doença pra isso, tinha doutora especialista falando sobre o assunto e tudo. Achei um barato, me identifiquei. Fiquei pensando e percebi que entre todas as minhas indecisões, você é a maior de todas, mas também é a maior certeza que pude ter nos últimos meses. Talvez então nem precise mais decidir nada, já que você se enfiou na minha vida de tal maneira que nem é necessário pensar se quero ou não a sua presença. Sigo achando que posso decidir não te querer, mas não percebo que isso é inútil. Algum dia, em algum momento, eu fiz ou falei algo que instituiu que você era meu e, bem… Eu também era sua.

Sendo assim, não temos pedidos, nem rótulos, nem datas comemorativas e nem episódios específicos para a gente se preocupar em não esquecer. Não é uma beleza?! Estamos livres de qualquer coisa que defina a gente! Mesmo porque… O que te mantém longe do esconderijo e me mantém por perto é simplesmente indefinível.