Seu Almeida tem um radinho de pilha daqueles bem antigos, que mal sintonizam direito. Dá pra ouvir as músicas que ele adora da janela da cozinha, enquanto lavamos a louça. A nossa janela da cozinha dá de frente pra janela da cozinha dele, mas a gente nunca lava a louça junto. Seu Almeida usa muita coisa descartável, já reparei isso pelo pouco que dá para enxergar da mesa em que ele almoça. Acho até que só pega os pratos e copos de vidro quando os filhos e netos vão o visitar. Seu Almeida é bem velhinho, mora sozinho e é nosso vizinho.

Durante as manhãs de domingo eu bem posso imaginar meu amor acordando sem me ver ao lado na cama. Preguiçoso, ele enrola alguns minutos no cobertor enquanto escuta os barulhos da nossa cozinha e o radinho de pilha do Seu Almeida. Todo dia de manhã ele acorda e liga o radinho, responsável por nos despertar até quando estamos imersos na maior das ressacas. Nossos amigos perguntam se não nos incomodamos, mas sempre achei impossível um senhor como aquele, ouvindo seus clássicos, relembrando seus bailes da juventude, cantarolando sem saber pronunciar nada em inglês, incomodar alguém que more ao lado. Se há algo que me incomoda, é essa vida mais ou menos que levamos já faz alguns meses.

Larguei a panela na pia e fechei a torneira. Estava tocando Waltel Branco e eu quis ouvir melhor. É difícil identificar as músicas, salvo raras vezes que Seu Almeida sintoniza em alguma estação paranaense que toque bossa brasileira ou algumas do Waltel. Não tinha letra, mas eu consegui reconhecer. Acho que meu amor não notou, pois de longe pude ouvir seu corpo levantar da cama, se esticar e ir até o banheiro. Fiquei ali, olhando pro radinho na janela do Seu Almeida, com as mãos ainda molhadas de espuma encostadas na pia, pensando quanto tempo não ouvia aquilo. Subiu-me rapidamente uma sensação de solidão e quase pude sentir que o prédio estava caindo quando olhei rapidamente para o céu e vi as nuvens passando.

Meu amor e eu não estamos em nossa melhor fase. Nosso norte deve estar variando, pois já fomos mais impulsivos no começo de tudo. Hoje, quando estou longe, escuto os barulhos que a vida a dois faz, tenho vontade de sair correndo, deixar a louça suja que resta na pia e nem fazer as malas. Só virar para a esquerda e sair pela porta de serviço do apartamento. Seu Almeida me veria fugindo e depois explicaria para o meu amor. “Ela ouviu Waltel, chorou um pouco de saudade do que vocês perderam ao longo dos anos e saiu sem nem secar as mãos.”

Não é preciso fazer terapia ou ter uma discussão de relacionamento para compreender que tudo amornou. Não é à toa que eu mesma tenho consciência de que você também pensa em fugir. Sei que quando você fica mais um pouco na cama depois de acordar é para pensar um pouco em nós dois. Não me engano, imagino até que você se pergunta por que é que ainda estamos aqui, por que eu continuo dormindo ao seu lado. Tudo isso embalados pelo radinho do Seu Almeida que, coitado, mal sabe que proporciona a trilha sonora da nossa crise.

Escuto-o saindo do banheiro, entrando no quarto e deitando novamente na cama. A música acabou, mas eu abortei a ideia de sair correndo e decidi ir até o meu amor. Quando chego, ele se assusta um pouco, mas logo abre um sorriso enquanto me aproximo. Posso ler sua mente, posso saber que quando ele me vê usando só essa camiseta velha dele alguma coisa muda. Alguma coisa, que a gente não sabe o que é, passa na nossa cabeça e finalmente entendemos o que estamos fazendo ali um com o outro depois de tanto tempo juntos, de tantas idas e voltas, de tantas partidas e retornos, de tantas crises, choros, risos, sorrisos brancos na escuridão e músicas no radinho de pilha do Seu Almeida.

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