Dor nas costas por ficar muito tempo curvada na cadeira do trabalho. É isso que você me dá: dor nas costas. Nosso amor sempre foi assim, curvado, inclinado, de cabeça baixa, encolhido como quem tem medo de se movimentar e assustar algo ou alguém que faz bem, que acolhe, esquenta o peito e a alma em dias frios de tempo ou de humor, mas… nunca disse que isso era ruim.

Esquentei os pés colocando-os embaixo das almofadas. Esse negócio de dormir no sofá, na sala, com a TV e a companhia do meu cachorro parecia tão mais agradável do que qualquer festa na cidade. Lá fora estava fazendo tanto frio, que nada conseguiria me tirar das cobertas e das minhas três camadas de roupa. Ninguém me convenceria de que do lado fora há algum lugar melhor, mais bonito e divertido. Minto. Sairia daqui, sim, se fosse para perto de uma lareira. Isso, apenas se pudesse juntar alguns travesseiros, me esticar no chão para bem perto dela e dormir com o rosto e o corpo aquecidos. Somente por isso deixaria de lado esta casa e esta bola de pelos deitada sobre mim e me servindo como coberta. Pensei.

Enganei-me. O celular toca, toca, toca, eu atendo e lá tem alguém pedindo por um colo, uma sopa, um cobertor de orelha e um café quente no fim da noite para que ninguém fique sozinho com este frio. Seria só essa a proposta, seria só um amor pra esquentar o inverno que acaba de chegar ao hemisfério sul – e que parece já existir nesta cidade há meses. Seria só isso, se eu não tivesse levantado do sofá correndo, trocado de roupa, pego o carro e ido me esquentar em outros braços. Se eu não tivesse feito tudo isso há anos atrás, talvez durante este inverno eu estivesse novamente com meu cachorro e camadas de cobertor sobre mim, como no primeiro parágrafo, mas… não.

Vivemos sufocados pelos pensamentos que não deixamos escapar pela boca. Tentamos nos aquecer sozinhos porque juntos fazemos isso muito mal, não encaixa, não dá liga, não esquenta o suficiente para transformar todo esse protótipo de casal em ardente relação duradoura. Por isso, mantemos nossa relação assim: dividida em estações. No verão, cada um viaja para um canto e se esquece do outro. No inverno, juntamos as mãos com luvas para fazer fondue. Ninguém reclama desse amor friorento.

No trabalho, sem você, eu tento esquentar as pernas sentando em cima dela, as mãos segurando a caneca de café e os cabelos no rosto para proteger as orelhas do vento gelado que entra pela janela aberta. Os dedos digitam rápido por causa do curto tempo que tenho para escrever todas as matérias do dia. Enquanto todos reclamam do frio na redação, eu torço para o expediente acabar logo. O inverno começou e eu não vejo a hora de te encontrar.