Moça, tenta tirar esse remédio da sua bolsa, talvez dê. Fiquei olhando para a cara do segurança do banco na esperança de ouvi-lo dizer que era apenas uma brincadeira, mas não era. Ele realmente me fez tirar uma cartelinha de Rivotril que estava na bolsa e colocá-la na caixa de acrílico transparente, junto a minha carteira, meu estojo de maquiagem e a chave de casa. Não sei se posso garantir, mas notei que todos da agência olhavam para mim com ar de reprovação. Eu, uma jovem de 22 anos, andando com uma cartela de tarja preta na bolsa, sendo barrada pelo detector de metais.

Na terceira tentativa, entrei. O segurança, constrangido, tentou me explicar que a parte prateada da cartela poderia estar me impedindo. Agradeci e tentei seguir logo para a mesa do gerente e fugir dos demais clientes. Precisei aguardá-lo enquanto atendia um casal gay e uma mulher confusa com algo relacionado a um empréstimo. Só sabia disso porque essa era a única palavra que ela repetia com ênfase suficiente para que eu, que estava uns três metros de distância, ouvir claramente.

Sem paciência, o gerente tentava explicar condições, consequências e outras dessas coisas chatas que sempre ouvimos deles. Bem, se tratando de que eu estava ali para pagar uma dívida (a minha primeira dívida) e o gerente estava um bocado mal humorado, imaginei que as coisas não seriam fáceis por ali. Meu objetivo era: pagar o que devia, fechar a conta e guardar os próximos tostões embaixo do colchão. No entanto, não posso negar, estava morrendo de vergonha do bancário engravatado.

Talvez eu devesse ter me arrumado também. Afinal de contas, são negócios, estamos tratando de dinheiro. Ou, talvez eu devesse explicar que minhas economias estão em outro lugar e meu saldo negativo era apenas consequência de um esquecimento. Não me lembrei de fechar a conta e eles, muito espertos, trataram de descontar taxas e mais taxas, juros e mais juros, etc.

Enquanto pensava nisso, a mulher e o casal gay resolveram seus problemas e eu fui chamada. No final das contas, nada precisei explicar. Tem certeza de que quer fechar a conta? Sim. Algum motivo especial? Ahn… dívidas. Pronto! Assumi que estava devendo até para o guardador de carro, assinei duas vias e fui embora com menos notas na carteira.

À noite, fui jantar na casa dos meus pais e contei o ocorrido. Ganhei um tapinha nas costas consolador de minha mãe. Querida, não somos gente grande até ter uma dívida. Mal sabia ela que eu estava mais chateada por ter mostrado minha cartelinha de Rivotril na frente de todo mundo.