O autor do livro que eu terminei de ler recentemente dizia que o sangue de seu personagem pingou em sua camisa e endureceu por entre as linhas de algodão, adotando uma cor de ferrugem escura. Me encantei por aquela descrição toda. Senti falta de ser sensível aos detalhes. Com o tempo, a gente fica calejado de escrever, de amar, de escrever sobre amar, de amar querendo sempre um tema para mais um conto. Com o tempo, a gente se acostuma com esse vai e vem de corpos, vira uma pessoa um pouco imune às dores de um caso, tenha ele o tamanho que for. A gente aprende a hora que é preciso ligar, a hora que é preciso ignorar, correr atrás, pagar uma cerveja, evitar.

Mas isso não nos livra de nos apaixonar. Porque, de fato, há uma maneira de se viver bem com muitos amantes. Existe, sim, um caminho feito por amores amenos dos quais a gente sempre sai ganhando e se livra de voltar para casa com o peito apertado. A gente pode escolher segui-lo com a pretensão de que sempre seremos amados e nunca abandonados, remoendo as dores dos calos passados. No entanto, isso tudo seria apenas uma alternativa, uma mentira besta que usamos sempre que podemos fugir de uma grande história. Não há mais aventura e, portanto, não há mais descrição inédita para estes amores. Nem discrição. Todas as características, movimentos e atos já foram estudados, analisados, notados. Pelo menos até então…

Até saber que existe um prazo para se amar, não havia amor. Ver o relógio rodar novamente em um circular infinito de minutos e horas, me devolveu a chance de olhar com mais atenção para ele. Reparar a barba, o jeito que fala, a mão, onde segura, onde põe, onde senta. Agora noto a maneira com que anda e a curvatura pouco exigida pelos padrões, o sorriso largo e expressivo. Procuro o sangue cor de ferrugem por entre as linhas de algodão da camisa. Noto se sangrou por fora ou por dentro, se sofreu, se amou, se é calejado como eu.

Se for, me apaixono e volto a escrever.