Liguei Leo Calvalcanti no fone de ouvido e, ao levantar a cabeça, pude notar no ônibus um garoto dançando sem querer enquanto tentava mandar uma mensagem no celular e se manter em pé entre as várias curvas feitas pelo biarticulado. Gosto disso em Curitiba, gosto dos vermelhões e das suas pistas exclusivas. Gosto de poder ver o trânsito parado ao lado e me sentir feliz por não ser mais uma motorizada no eterno engarrafamento da Visconde (mesmo que isso me faça lembrar da frustração que foi reprovar três vezes no Detran). Eu, que não sou daqui, mas quase sempre vivi por aqui, me esforço para nunca perder meu olhar estrangeiro.

Por isso mesmo, rio discretamente do curitibano que só sabe reclamar. Resmunga porque está frio, esbraveja porque está calor demais, faz cara feia para a chuva e se assusta com as ventanias. Rio porque é tão lindo ver Curitiba com sol, é tão bom ver as pessoas de vestidos e bermudas na rua, saindo mais cedo de casa para trabalhar e retornando ainda com a luz do dia. É tão bonito ver vocês, que tanto me acolheram, sorrindo frouxo na Rua XV para as mulheres que passeiam de saia. Curitiba se renova, se enche de alegria, parece uma menina de 20 anos de tanta vitalidade que exala. Mesmo assim, ainda é possível ouvir alguns reclamões espernearem do suor, da água que nunca gela porque a jarra não para um segundo na geladeira.

Oras. É tão bom ter céu azul todo dia, pés à mostras em havaianas, estampas floridas e a salada do restaurante do Délio saindo tanto quanto o prato do dia. É vida, gente, não tem como negar. Não me dói o frio, o vento, a chuva, me dói quase não ter sol nessa cidade que tem tanto verde para ser mostrado, que tem tanta pele branquinha precisando de um bronze rápido. Eu não consigo deixar de admirar a simpatia do curitibano se exibindo tão facinha por aí nesses dias quentes.

Eu mesma passo a notar a cor dos prédios, os rapazes que dançam sem querer no ônibus e a bicicleta da vizinha que faz um barulho engraçado quando ela aperta o freio. Todo começo de novembro é assim: eu me surpreendo com o sol na cidade, me lembro de que não sou daqui e me preencho de vontade de conhecer sempre mais um pouco, de ficar mais um pouco. Mesmo que, para isso, precise enfrentar um novo e longo inverno rigoroso.

 

[soundcloud params=”color=8B7B8B&theme_color=8B7B8B”]http://soundcloud.com/leo-cavalcanti/13-chuvarada-feat-tata-aeroplano[/soundcloud]

 

Enquanto pensava em tudo isso, Leo Cavalcanti e Tata Aeroplano gritavam no meu ouvido: “Eu tenho vontade, mas não tenho vocação pra viver de chuvarada. (…) Ah! você já me tirou do sério. Toda vez que chove eu espero. Sei que você não gosta do sol.”