A professora de traços orientais acaba de voltar de uma viagem para a Tailândia com a pele bronzeada. Sua voz firme e seu inglês impecável orientam a próxima série de exercícios. Eu, encostada na parede, observo a concentração das alunas, algumas são jovens, outras mais maduras, duas aparentemente beirando os 50 anos, mas todas se esforçando para não errar o plié. Esbarro meu olhar em suas sapatilhas, que são tão diferentes como as idades de suas donas. Pretas, brancas, cinzas de sujeira, rosas, com um elástico ou dois… o que elas dizem a respeitos destas bailarinas? Exibem vaidade? Disciplina? Como essa música que toca agora as fazem se sentir? Será que ouvem? Ou se perdem em seus deveres: pas assemblé, demi-plié, battement, assemblé soutenu, tantas ordens, tantas repetições, tantas sequências para guardar. Uma das mais velhas dançarinas não para de se olhar no espelho, outra mais nova tem dificuldade para acompanhar o ritmo do grupo. A melhor de todas se destaca pela leveza com que exibe em cada mexer de braço, de perna, em cada pouso de pé. Acho curioso todos esses cenhos franzidos, todo esse suor, pés enfaixados, calos e joanetes para um dia… ser a mais leve de todas.