Pela janela do meu novo quarto eu consigo ver somente algumas das trilhões de janelas com luzes acesas de Downtown durante a noite. Impossível contar quantas são, impossível acompanhar o que se passa dentro de cada uma delas. São muitas e todas com as cortinas abertas, como se ninguém tivesse nada para esconder. Melhor: como se ninguém quisesse esconder. Posso ver um casal na cama, posso ver um homem cozinhando, posso ver uma adolescente se exercitando, posso ver o que eu quiser, mas também posso ser vista.

Esta noite, enquanto estava sentada na minha cama, observei com calma toda essa exibição e conclui que Vancouver não possui janelas e, sim, vitrines. Optei por não me pôr em exibição, apaguei a luz do abajur e deixei que os moradores do prédio da frente me imaginassem dormindo, mas permaneci aqui, assistindo as ofertas do dia. Pensei em escolher uma vitrine para acompanhar todos os dias, mas fiquei com medo ao pensar que alguém também poderia ter me escolhido. Achei isso tudo aterrorizante. Achei doente. Mudei de ideia.

Ao longo dos meus goles de chá, as luzes foram se apagando. Meu reality show anunciava seu fim. Por alguns milésimos de segundo imaginei o vizinho do 25º me dando tchau antes de apagar sua luz, mas me dei conta de que estava apenas tomada por sono. Decidi deixar meu momento L.B. Jeffries de lado por essa noite. Afinal de contas, no dia seguinte eu provavelmente exibiria uma promoção de lingerie logo cedo, antes de ir para o trabalho, logo aqui, diretamente da minha vitrine.