Eu não sei se dá para perceber, mas o tempo todo eu tenho pressa na vida. Tenho pressa de tomar chá, porque por alguns segundos eu consigo imaginar que ele vai esfriar, e vai ficar ruim, e eu não vou conseguir tomar inteiro, e o meu dinheiro gasto com ele vai ser inútil, então eu sinto uma puta obrigação de tomar logo todo ele, o mais rápido que eu conseguir, sem nem ligar se vou queimar a língua ou qualquer outra coisa. Aí eu tomo, esquento as bochechas, o peito, o coração e… fico triste por ter durado tão pouco.

Eu tenho pressa de terminar o treinamento que estou fazendo para o meu novo trabalho e fico contando as horas para terminar logo a aula sobre vinhos, ou sobre comida, ou sobre drinks, porque eu quero aprender logo tudo rápido e começar a trabalhar, e ter logo uma escala para seguir, saber meus dias de folga, conhecer meus clientes, ganhar dinheiro e, enfim, pedir demissão para viajar por aí.

Eu tenho pressa, não sei porque, talvez nunca saiba, de depois voltar para o Brasil, de brincar de montar um lar com você, de escolher os quadros que nós vamos pendurar na parede ou de imaginar os bilhetes que vou deixar na geladeira com as coisas que precisamos comprar no mercado. Sabe… eu também tenho pressa de ter logo um dia ruim só para voltar para casa e pedir um colo, uma massagem, um cafuné, ou algo do tipo para você.

Mas o melhor de tudo é pensar que, talvez, entre todas as minhas vontades de ter pressa na vida, essa seja a única que quando chegar a hora, eu não vou mais querer nem olhar para o relógio.