Viver em países diferentes requer empenho. Não só para conquistar o básico que precisamos para viver em condições dignas, mas também para construir uma atmosfera agradável – que nunca substituirá aquela com a qual você está acostumado em sua terra natal, mas que pode muito bem amenizar a saudade. Além disso, viver em países diferentes também requer dedicação na eterna luta diária com o fuso horário. Não. Eu não estou aqui no sofá, tomando chazinho e escrevendo às duas da madrugada porque quero. Estou esperando aquele barulhinho que o Skype faz e que só quem vive longe das pessoas que ama sabe o que significa.

Estou aqui esperando você entrar para me contar todas as suas novidades com a mesma empolgação de uma criança falando sobre seu dia na escola. Eu quero ouvir e forçar uma risada qualquer para as coisas que podem ter sido engraçadas quando aconteceram, mas que para mim não fazem sentindo algum nesse momento. Quero fingir que não sinto ciúmes daquela nova garota que você começou a seguir no Instagram e perguntar sobre ela sutilmente como quem não quer nada. Eu quero te ver na janelinha e rir (dessa vez de verdade) da sua cara quando a câmera trava. Melhor ainda: eu estou aqui, tomando chazinho e escrevendo as duas da madrugada, porque mais do que nunca eu quero gastar 90% da nossa conversa perguntando “Alo, tá me ouvindo?”.

É, não é fácil. Nem para mim, que estou sozinha aqui. Nem para você, que está sozinho aí. Tem que fingir que não liga, responder perguntas inconvenientes de amigos sem-noção, se acostumar a voltar para casa sozinho e chorar baixinho quando pensa que tudo é loucura e nada dará certo. Viver em países diferentes requer psicológico moldado para eventuais momentos de drama mexicano. Afinal, você nunca sabe quando vai sofrer mais que a Maria do Bairro. Tem que ser ponta firme, mesmo que o coração esteja mais mole que o sagu do restaurante lá da quadra de cima.

Entre todos os “poréns” e “entretantos”, existe o mais difícil: para viver em países diferentes há de se estar preparado para dizer adeus de uma hora para a outra, sem nem mesmo a chance de se roubar um último beijo. Preparado para dizer (e ouvir) que a distância pode durar mais do que o programado, talvez até para sempre, nunca se sabe. Preparado para dizer (e ouvir) que os milhares de quilômetros de estrada, montanha, mar e céu são mais fortes do que qualquer boa vontade do chefe e promoção aérea da Tam. Viver em países diferentes significa algumas vezes perder mais do que um corpo ao lado na cama, mas perder alguns planos que nunca poderão ser realizados. Fica a frustração do que não aconteceu… e a raiva do barulhinho que o Skype faz.