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Oh, eu não to conseguindo te ouvir, mas eu to concordando mesmo assim, tá? (risada) Oh, só queria dizer que eu quero que você seja muito feliz, viu? Aqui, aí no Canadá, na Conchichina, aonde quer que você vá, tá? Oh, manda um beijo pro Bernardo. Teu tio estava aqui pensando que ele era seu namorado (risada). Vou dizer pro seu avô que você ligou. Tá? Tá bom então. Te amo! Beijo

Então ela desligou o telefone praticamente na minha cara, como sempre faz quando não consegue me compreender do outro lado da linha. Me compreender, aliás, é coisa rara para ela. Compreender o que eu falo, na velocidade que eu falo, sobre os assuntos que falo e com as gírias que falo. Tudo isso junto em uma ligação Canadá – Região Serrana no Rio através do Skype foi praticamente o desafio do século. É… não há tecnologia que aproxime nossa geração ao ponto de se entender.

Minha vó é uma mulher bacana. Ela é meio maluca, meio dramática, meio metida a besta por ter umas manias de gente rica quando morava no meio do nada que é Paty do Alferes, mas nem por isso deixa de ser bacana. Ao contrário de muitas avós por aí, dona Celina é adepta aos palavrões, à ironia, ao humor negro, à esperteza quase infantil de se roubar biscoitos no armário da cozinha durante a madrugada, à teimosia quase adolescente de se iniciar discussões polêmicas sabendo que o circo vai pegar fogo, e outras atitudes pra lá de inimagináveis quando nos damos conta de que estamos falando de uma senhora de idade, com mais de 5 netos nas costas.

Minha vó também é uma mulher honesta, sincera, peito aberto e… sem noção. Lembro quando eu apareci toda orgulhosa desfilando pela casa meu cropped jeans novo, todo rasgado e cheio de lavagem, até ela dizer: “Credo! Está parecendo uma caipira! Vai pescar caranguejo?” Não disse?! Minha vó é uma pessoa sincera… até demais. Com o passar dos anos eu cresci e aprendi a responde-la com a sutileza de quem respeita os mais velhos, mas com a sagacidade de quem já não leva desaforo pra casa. Desde então foi difícil conter a troca de elogios tortos entre nós duas. Minha mãe, coitada, cansou de pedir para as duas birrentas pararem de brigar. Briga que, cá entre nós, sempre foi pura encenação de ambas as partes. Implicar comigo é o jeito dela de dizer que me ama não importa o quão forte seja o choque entre nossas gerações. Responde-la é o meu jeito de mostrá-la que eu, na verdade, sou exatamente o reflexo dela, adolescente, nos dias de hoje.

Fico feliz de saber que existe algo especial entre nós. Algo que vai além de presentes de Natal, ligações em dia de aniversário e perguntas do tipo “…e os namorados?“. A relação avó e neta entre nós superou as barreiras do clichê independente da distancia que sempre nos rodeou. Graças a ela, hoje, quando meu pai me ligou pra me contar a notícia mais triste que já pude receber desde que me mudei para o outro lado das Américas, eu consegui sorrir um sorriso bem largo depois de soluçar muito. Sorri porque é impossível não lembrar dela fazendo um batalhão de coisas engraçadas como dormir sentada toda torta no cantinho da poltrona segurando o controle remoto, limpar a boca com o miolo do pão no almoço, mandar todo mundo à merda, falar alguma coisa em um francês completamente mandrake só para se exibir, dizer que tá com dor no braço, na perna, nas costas, na orelha, no cabelo, ficar brava e resmungar quando cortamos a sobremesa dela, mas logo depois dar uma piscadinha esperta pra mim como quem não liga porque tem um pacote de Bis inteirinho escondido só pra ela no quarto, e, claro, me escutar falando durante horas balançando a cabeça afirmativamente e depois virar para a minha irmã e perguntar: “O que ela disse?”.

Eu disse que ia te escrever uma carta, vó, porque a internet aqui no Canadá ficou pesada demais com tamanha saudade que eu estava e de uma hora para outra a ligação ficou ruim. Mas… oh… só queria dizer que eu também quero que você seja muito feliz, viu? Aqui, aí no céu, na Conchichina, aonde quer quer você vá, tá?