Você sabe que só eu sei de algumas coisas, não é? Detalhes que você, meio bêbada, contou enquanto se deleitava no sofá com a minha massagem no seu pé. Confidências que você, por ser orgulhosa, nunca deixou escapar nem para as suas amigas só por serem desejos e vontades que desmascaram a mulher cheia de atitude e personalidade que você busca ser 24h por dia. As roupas no chão do meu quarto não despiram somente a minha namorada, como também a garota sonhadora trancada por dentro e exibida apenas nesses momentos boêmios e quase eróticos. Digo “quase erótico”, porque ter você semi nua no sofá do meu quarto suspirando e gemendo baixinho por causa da massagem me encheria de tesão se você não ficasse tão tagarela depois de 2 cervejas.

Mas pera lá! Longe de mim reclamar desses momentos. Não encare como crítica. Eu adoro, gata, eu simplesmente adoro isso. Você se empolga na leveza do seu corpo e decide transbordar tudo aquilo que te faz pesada. Você desabafa, sonha, reclama, confessa, compartilha comigo suas ambições, sua imaginação, seus segredos como se fosse uma adolescente. Você nem mesmo nota que eu estou ali, porque é possível reparar no seu olhar que você está falando tudo aquilo para você mesma. E quer saber? Eu nem ligo de ser ignorado assim, de ser feito de parede, psicólogo ou massagista de pé. Eu sou cheio de orgulho de saber que você se sente assim, tão à vontade comigo ao ponto de deixar tudo isso escapar.

Doeu muito quando tudo acabou e eu finalmente notei que você nunca me incluiu em nenhum desses sonhos, planos, desejos. Fiquei ali, distraído com a mulher semi nua tagarela, embalado pela sua exaltação, e não percebi que nunca existiu frase com “nós” como sujeito. Me senti deixado de lado, passado à diante, ou pior: me senti como uma diversão temporária, somente enquanto você estava aqui, estagnada nesta cidade, estagnada no trabalho, somente planejando sua grande fuga. Doeu quando eu nunca mais vi roupa nenhuma sua no meu chão e não ouvi ninguém tagarelando mais que você.

Mas hoje eu parei com a minha irmã numa dessas joalherias de grife que abriram naquele shopping chique da cidade e me lembrei de uma das suas confissões mais contraditórias. Com um sorriso rosto, olhei para a vitrine quase rindo e me dei conta de que eu, somente eu, sei de algumas coisas sobre você que homem nenhum no mundo será capaz de adivinhar. Todo mundo sabe que você não quer casar, não quer vestido branco, não quer igreja e se mudaria para qualquer cafofo com o homem que você escolher para ser seu pra sempre. Mas só eu sei que você sonha com um belo e brilhante anel no dedo. Um que fará você chorar sorrindo e cuidar com carinho para depois passar para sua filha, sua neta, sua bisneta… “até alguém na família falir e vendê-lo” – disse você, tentando quebrar o romantismo do seu íntimo e secreto conto de fadas.