Faço planos com o primeiro, mas espero ansiosa pelo segundo me contar os dele, que são feitos na independência do recém solteiro que é. A falta de compromisso com o futuro, a leveza de quem não tem pressa para se preocupar com quem casar, se vai ter filhos, como vai comprar uma casa, um carro, a leveza de quem pode decidir sozinho onde e com quem vai passar o Natal. Enquanto eu sofro na antecipação de um casamento sonhado, porém temido – como todo felizes para sempre é.
Minto. Sofro mesmo é pelo que vem com o casamento em si, que é a necessidade angustiante de fazer todos os seus planos com a condição de agradar duas partes: você e o outro. Além do relógio biológico que uma hora ou outra vai soar. E quando soar?! Qual mulher serei? Serei aquela que diz sim e abandona todos os planos pela sonhada maternidade? Serei aquela que diz não num ato de independência e liberdade diante das pressões familiares?
Queria ter a leveza desse cara. Jamais largaria meu futuro marido por ele, mas ah, como é boa a sensação da incerteza. Nunca sei se sou a única na vida dele ou se ele pensa em mim nas horas vagas e fuça o celular como eu fuço na esperança de encontrar uma mensagem não lida. Tenho vontade de ligar, de chamá-lo para sair todos os dias, mas busco me distrair com outras coisas. No fim, ele só aparece de vez em nunca. É ocupado, como todo solteiro é. Vem, me domina, sussurra no ato que estava com saudades, me faz sentir novamente o que é ser desejada, me traz de volta aquela delícia juvenil de provocar, experimentar sem saber se o outro vai gostar, sem seguir a fórmula padrão que seguimos após completar anos de relacionamento sério.
Depois ele vai embora. Acaricia o meu corpo, diz que é o melhor do mundo, dorme 20 minutos e vai embora lamentando ter que acordar cedo. Ele deve esquecer que também já fui solteira – e não liga no dia seguinte, nem no outro, até que a gente se esbarre de novo. Sou deixada ansiosa masturbando em dedos e pensamentos, com saudade da jovem que era anos atrás, do orgulho e poder que sentia através do meu corpo. Aquilo era uma arma e eu sabia bem como usar. Hoje já me sinto mais tímida, já não entro numa sala com o peito tão estufado, com a confiança tão aflorada. O que aconteceu? Para onde foi a minha moral? O espírito dos 20 passou mesmo rápido assim? Acabou logo nos primeiros anos? Será que vou me arrepender?
Penso o tempo todo em desistir. Penso mesmo. Fico com medo de olhar pra trás e dizer “nossa, tão nova já ancorei no primeiro porto.”