Chegou em casa, chutou as sapatilhas para tirá-las e andou pelo breu da sala até alcançar o abajur, enquanto ele, mais atrás, brigava com os botões do interruptor. “Desiste. Não tem lâmpada no teto. Não gosto. Prefiro essa luz indireta do abajur”, disse ela enquanto abria a janela grande da sala. O apartamento era antigo, espaçoso, com janelas largas e carpete no chão. Aliás, era por conta do carpete que ele ainda estava na pequena entrada, agachado, desamarrando os tênis para poder entrar. Só se entrava naquele apartamento descalço. Enquanto ela caminhava para o corredor, pensava como era engraçada essa paciência do rapaz em desamarrar os sapatos com tanta calma. Ela estava mais acostumada a escorregar as sapatilhas para fora do pé, ou tirar o tênis empurrando o calcanhar de um pé com a ponta do outro.

Ela entra no quarto e começa a tirar a calça de forma atrapalhada, abaixa até o joelho e – quase como numa desistência de fazer esforço – tenta terminar sacudindo as próprias pernas. Se joga na cama e resmunga com o rosto no travesseiro. Ele, na cozinha, coloca as cervejas na geladeira, pega uma só e grita: “Quer dividir?”. Sem resposta. Ele abre mesmo assim. Ao chegar no quarto, ri e acende a luz. “E aí, vai desistir já?”. Sem resposta. Ele então senta na beirada da cama e fica brincando com o cabelo dela com a mão esquerda, enquanto bebe com a direita.

“Eu estava aqui pensando. Já passou pela sua cabeça como é louco a gente gostar de alguém? Encontrar alguém, que não é perfeito e que apesar dos momentos bons, também te traz momentos ruins (pausa) tipo você agora, que me fez ir até o mercado comprar cerveja e está desmaiada na cama me ignorando (pausa), mas que por algum motivo te faz parar de olhar para as outras pessoas, te faz parar de procurar. Não é louco?”

É. ô. Muito. – pensou ela, enquanto levantava e sentava após se sentir mal com a indireta. Pegando a cerveja da mão dele com um sorriso de quem pede desculpas sem pedir, ela bebe enquanto ganha tempo para pensar no que responder.

“Mas eu nunca parei de procurar.”

Entre um gole e outro, a frase sai pausadamente de forma proposital, enquanto, com o canto do olho, ela observa a expressão dele, um pouco desapontado. “Eu não parei de procurar e aposto que você também não, só passamos a ter mais critérios na escolha. E o critério, no caso, é a referência que temos um do outro. Posso continuar procurando, mas isso não quer dizer que vou encontrar alguém que eu goste tanto ao ponto de deixar você. Você é a minha referência atualmente.”

Ele pega a cerveja de volta meio puto.

– Ah, qual é?! Até parece que você tem muitos planos para nós.

– Não tenho?

– Não… Tem?

– Tenho.