Todos nós somos uma música para alguém. Meu pai sempre entra em minhas mais profundas memórias ao som de uma famosa do Cat Stevens. Minha mãe se encarrega de aparecer em versos de Paulinho da Viola. Meus amores, todos eles, ressurgem entre um passar e outro de faixas no iPod. Às vezes gosto de pensar que sou The Shins para alguém. Nunca saberei se sou. Uma pena.

No dia que conheci Mara, descobri outra relação com a música. Percebi que somos – ou que podemos ser – solos. Toda vez que entra na sala, Mara surge aos meus ouvidos como um solo de jazz agradável e agressivo. Da mesma maneira como surge aos olhos de quem a esbarra na rua.

Mara é um susto na vida de qualquer pessoa. Inclusive na minha – e não sei se um dia irei me acostumar com isso. Toda vez que a vejo no horizonte, mesmo que vindo ao meu encontro, e mesmo que este encontro tenha sido marcado naquele local, naquele horário, mesmo que eu a tenha visto horas antes, tenha memorizado suas roupas, seus cabelos, notado seus lábios rachados, Mara surge como um susto. E então o solo de jazz toca, quebrando o silêncio que a minha vida tem sem ela.

Sou triste com o solo de Mara. Sou pior sem ele.

Sou triste porque não sei se, para ela, sou música ou sou solo. Sou violino desafinado, ou uma orquestra inteira. Perco a mulher que amo para o meu medo de seu jazz ser apreciado por mais alguém. Por pensar que sua entrada triunfal na estação da Sé, atrasada, correndo, esbarrando em todos, seja tal susto e tal solo para mais alguém. Um homem que, como eu, passará a entender que não há nada mais gracioso e atraente do que uma mulher que, na vida, é solo de jazz.