Sempre que me busca de carro no trabalho, Greta sorri e se inclina para me dar um beijo rápido com gosto de Tic Tac de laranja, enquanto a mão pousa imóvel no câmbio e é espremida por um abraço meu. Ela nunca solta a mão do câmbio quando encosta para eu entrar. Parece até um sinal para eu não demorar muito e colocar logo o cinto de segurança. Faz bem pouco tempo que ela tirou carteira e só na semana passada topou dirigir comigo do lado. Ainda a sinto se encolher de vergonha quando faz alguma besteira e posso ouvir sua respiração pesar quando algo a deixa ansiosa – caminhões e ônibus a pressionando, vagas pequenas, estacionamentos estreitos e ladeiras muito íngremes. Greta é péssima com ladeiras íngremes. Quando deixa morrer o carro, a autoestima dela também morre um pouquinho. Hoje até penso melhor se eu deveria ter insistido tanto para ela voltar para a auto escola. A bichinha nem consegue conversar enquanto dirige e tem o costume de abaixar o som em balizas ou cruzamentos perigosos. Muitas vezes nem ligo o rádio e voltamos pra casa em silêncio mesmo, com rápidos selinhos de agradecimento pela compreensão ao parar no sinaleiro. São segundos em que ela pode relaxar, olhar para mim, pegar mais um Tic Tac de laranja e sorrir aliviada como quem comemora não ter batido em ninguém até hoje. Insisti para ela dirigir todos os dias nessa semana e ela topou o desafio determinada. Tá sendo a semana mais longa da minha vida, disse ela rindo ao chegar em casa. A garagem do prédio é o momento em que, vez ou outra, eu a deixo descansar e manobro o carro. Tínhamos negociado que ela tiraria carteira se eu conseguisse uma vaga mais fácil na garagem. Na hora de negociar a troca, ganhou no valor a nossa vaga velha, pequena, dos fundos, espremida entre dois vizinhos que não sabem manter suas caminhonetes dentro da área delimitada. O dinheiro a desembolsar pela nova vaga não valia a pena. Ficou a vaga velha e assumi a tarefa de estacionar o carro. Aí é só no elevador que eu vou ouvir a voz dela, saber do seu dia, das coisas que deram certo ou errado. Finalmente tenho a atenção dela toda para mim, olhando para mim, falando da vida para mim. Ao chegar em casa, abro a porta e sempre dou um beijo na testa enquanto ela passa por mim. Obrigada pela carona, amor! E de repente todo o ciúme das ruas, dos sinaleiros e dos outros motoristas, que contam com toda a concentração dela, linda e séria no trânsito, vale a pena ao vê-la entrar em casa sorrindo, orgulhosa de si mesma.