E me pego calada, sentada, pensando. Com as costas encostadas na cama, com a calça jeans grudada, com as minhas roupas mais largas no chão do quarto para tentar simular alguma presença sua. Liguei o rádio alto para cobrir as suas risadas na minha cabeça. Olha, eu estou bebendo água nesse copo plástico como se fosse vinho em taça de cristal e… Sinceramente? Me sinto tão bêbada quanto. E agora eu não inspiro mais, agora eu puxo o ar com a velocidade de um soluço. Eu já não expiro mais, agora eu largo gás carbônico com o peso de um alívio. Há muitas coisas que existem dentro de mim além de ar, há muitas pessoas, há muitos lugares, existem algumas várias de mim brigando para ver qual delas mais se define. Eu prefiro aquela que morre, a mais fraca e indefesa. Eu preferia ter meu interno delicado, trancado, calado tanto quanto eu estou agora. Por quê eu não posso ser uma mulher mal-comida igual todas as outras milhares que existem no mundo? Por quê eu não cosigo ser grosseira, porca, estúpida e sem coração? É sempre esse sorriso gratuito, com olhos puxados e boa vontade. É sempre esse coração burro, sensível que treme toda vez que eu fico longe de você. Um dia todo mundo cansa de bondades. Eu cansei. Eu quero brincar de encarnar alguma artista plástica neurótica, solitária e incrompeendida. Quero fazer arte sem me achar arte. Custa ser um pouco mais complicada? Meu problemas são sempre tão certinhos, tão fáceis de administrar. São quase sempre feitos por mim mesma, na minha preguiça típica e infinita de viver organizadamente.