O terceiro ano terminou, o resultado do vestibular ia demorar e o meu tédio estava ficando entediado. Como de costume eu e minhas duas melhores amigas fomos no nosso café preferido. No meio da conversa das duas, sobre faculdades e estágios, deixei escapar que estava pensando em trabalhar em alguma loja no shopping e encarar o corre-corre do mês de Dezembro. Quis me matar. Achei que as duas iam me chamar de louca, mas não! Me apoiaram e fizeram eu insistir na idéia de girico que tive. Tudo bem, não deve ser difícil. Não foi. Realmente não foi. Um santo amigo perguntou se eu tinha interesse em ir com ele pedir emprego na livraria moderninha do shopping classe alta de Curitiba. Topei. Topei e rezei. Vesti minha cara de pau e deixei o currículo em outra loja. Ensaiei mil jeitos de contar para a minha mãe. “Oi mãe, estou pensando em procurar emprego para dezembro e meu amigo me perguntou se eu quero trabalhar naquela livraria lá sabe e eu falei que achava que nãããão, mas disse que acompanhava e ele está aqui e nós vamos lá e pode ser legal sabe e eu juro que só vou aceitar se for legal e…” e ela gostou! Em menos de 5 dias eu estava conversando com a gerente e conhecendo os meus 3 novos colegas de trabalho. No mesmo dia a outra loja me liga e marca outra entrevista. No almoço com o meu pai escuto um “Parabéns! Gostei da atitude!”. Uau! Não achei que queriam se livrar tanto de mim assim. Bacana, pensei. Terei meu salário e vou comprar aquela bolsa, aquele vestido, aquela blusinha e quem sabe uma televisão nova lá pra casa! 4 semanas de trabalho e 4 minutos para gastar o salário ainda não materializado. Fato: Confusão na carteira de trabalho, entrevistas de RH que fazem as minhas aulas de Física serem divertidíssimas e uma pontinha de dor no coração em negar uma das propostas. “Ai moça, sabe o que é? Eu queria muito muito muito muito meeeeesmo trabalhar na sua loja e eu gosto muito dela e eu juro que vou continuar comprando nela e se você puder guardar essa vaga para eu poder ocupar ano que vem quando eu voltar das férias de verão eu juuuro que aceito e… Poxa! A senhora tinha mesmo que me ligar só hoje às 20h30 da noite? Agora eu já assinei a porcaria do contrato com a Livraria que me paga mais!”. Caramba! Acho que essa será a primeira e a última vez que poderei escolher onde quero trabalhar. Em plena crise mundial estou esbanjando capacidade de convencer o quanto uma velha gorda combina com aquela saia jeans rasgada ou o quanto vale a pena comprar 5 livros e pagar só em Janeiro do ano que vem (como se estivesse muito longe).