Eu sou mesmo boba, teimosa, estressada, cheia de manias, cheia de papel de bala nos bolsos, cheia de sapatos e caixas no quarto. Quando eu estou concentrada eu bagunço os cabelos sim, borro maquiagem e faço bico. E daí? E daí que eu tenho esse jeito? Eu não sou menos humana, menos mulher, menos sentimental, menos carente! Eu não gosto de receber “não”, “talvez”, “quem sabe”. Eu brigo, xingo, bato o pé e digo: “Eu-não-ligo”. Mas eu ligo. Basta a primeira cliente engrossar a voz comigo que lá vou eu entrar o carro com os olhos cheios de lágrima soluçando palavras aleatórias como se o vazio que eu sinto aqui dentro fosse culpa do estresse no trabalho. É um vazio pedindo pra ser preenchido. Pedindo para eu parar de tentar enchê-lo com balas e me consolar com a velha desculpa de que final de ano é sempre igual. Eu sou sempre igual. Mais do mesmo, finita e previsível.