Há muito tempo eu queria ter alguém para ver e algum lugar para ir. Há muito tempo eu queria fazer isso, mesmo que “isso” seja nada! Mesmo que “nada” seja assistir Globo Repórter, seja pegar um filme no final ou deitar junto até dormir. Há muito tempo eu não abraçava forte alguém para chorar. Bom, há muito tempo eu não abraçava forte alguém ou algo para nada! Agora fico com essa vontade louca de descer do ônibus toda vez que passo na frente da sua casa. É tão mais perto, é tão mais rápido, é tão melhor! Então começa a gincana: “Se o cara gordo de camisa listrada tossir, eu desço!”. Não tosse. “Se a porta 3 abrir por primeiro, eu desço!”. Não abre, ela nunca abre! Só para estragar meu plano de tocar a campainha com a maior cara lavada do mundo gaguejando uma desculpa qualquer. Mas eu tenho medo, medo de uma coisa que eu nunca tive! Do engano. Aquela coceirinha que dá na gente e que fala bem baixinho no ouvido para pisar leve. Para não afundar o coração e deixá-lo bem seguro no bolso. Não dar, nem esconder, não perder!

Agora eu ando por aí (sem descer do ônibus) torcendo para o engano estar enganado outra vez.