Eu estava no bar do hotel. Lógico! Onde mais eu estaria? Perto de mim, o garçom mexicano, o casal de velhinhos viajando à passeio e um cara diferente. Diferente mas interessante. Interessante mas metido. Metido porque era o tipo de pessoa tão bonita que ele mesmo deveria saber disso. Ele também estava sozinho no bar e atendeu todos os telefonemas ali mesmo, sem se importar com a música, com o barulho, com a voz meio alterada de sono e de bebida. Então eu concluí que ele não tinha mulher. Eu sabia que era uma conclusão precipitada, mas isso o tornava um bocado mais interessante. Pedi mais uma caipirinha e posicionei meu laptop estrategicamente, de forma que pudesse ver meu novo Tamagotchi da distração sem ser descoberta. Mas ele me descobriu, acho que fiquei olhando demais para a etiqueta da camisa dele. Devagar ele pegou o copo de Vodka e foi sentar na minha frente. Não disse nada, só respirou fundo e olhou para a parede de vidro do nosso lado. Eu fingi que não liguei, mesmo com o cara ali, sentado na minha mesa! Digitei meia dúzia de palavras, mas ele logo interrompeu meu tec-tec de teclado: “Consegue ler agora?”. Eu poderia mentir se logo depois não tivesse olhado para o bolso esquerdo da camisa dele. “Tommy Hilfinger” e esbocei um sorriso debochado. Malditos homens ricos! Malditos! Acham que toda mulher quer ser sustentada à dólares, viagens e carros de marca. “Eu não te conheço de algum lugar? Uau! Você é jornalista agora, não é?”. Agora? Como assim agora eu sou jornalista? O que eu era antes? “Estudamos juntos no ensino fundamental, lembra de mim? Diego?”. Diego, o playboy insuportável metido a gostoso que tirava com a minha cara! Que me fez voltar chorando para casa pedindo para a minha mãe trocar meu esmalte, porque “o Diego” falou que minhas unhas eram ridículas pintadas de bolinha. E ridículo era palavrão naquela idade! Hoje em dia me chamo de ridícula a cada texto que escrevo. “Oi, lembro sim! Tudo bom?”. AGORA o tal Diego era DJ badalado e viajava o mundo discotecando as festas mais TOPS do planeta. E AGORA eu era uma jornalista, escritora e encalhada que bebe sozinha em bar de hotel. Ele se amarrou em me ver magra, de cabelo penteado e vestindo roupas de lycra e não mais conjuntos de moletom coloridos. Eu me amarrei de ver ele babando para a mulher que estava na frente dele. Era a vingança mais pura e gostosa que eu já havia experimentado. O resto da conversa durou a noite inteira no bar, 1/4 da madrugada no corredor e os restantes 3/4 na minha cama. Acordei no dia seguinte olhando o peso morto ao meu lado, sussurrei para mim mesma: “Ridícula”.