Eu faria um texto bem bonito se não fosse esse meu pé gelado que me incomoda. Escreveria sobre como não doeu nada guardar suas fotos na gaveta ou sobre como é difícil ler um livro por obrigação. Eu podia contar que tive vontade de chorar a tarde inteira porque é difícil demais viver num mundo cheio de gente e não encontrar ninguém para dividir um pão com geléia no café da manhã. Mas eu não quis. Eu preferi ficar no quarto, ouvindo minhas músicas e curtindo a pena de mim mesma que insisto em ter nesses dias de chuva. Disse não ao convite, senti que era por educação. Ou nem senti, mas preferi achar isso para não me sentir culpada por não ter aceitado. Disse sim ao chocolate e a coberta xadrez. Quase pedi para alguém me dar banho, para escovar meus dentes, pentear meus cabelos, me dar um beijo e desejar boa noite, bom dia, boa semana, boa sorte. Ao invés disso, pesquisei na memória o que me fazia feliz e dei de cara com um barbudo que desapareceu da noite pro dia. “Memória de Merda!” protestei. Voltei a dormir.