Quando eu decidi aceitar a proposta e ir morar com ele, todo mundo achou estranho. Minha mãe resolveu inventar um curso preparatório dona-de-casa para mim. Meu melhor amigo gay me deu um kit de sais de banho com uma colher de pau na cestinha, como quem diz: “Nem tudo serão flores”. Agradeci contrariada. Eu não entendo o porquê ir morar com o namorado exige tanta análise dos meus dotes domésticos. Quando eu fui dividir aquele apartamento em SP com a minha prima, ninguém se preocupou com o fato de eu não saber refogar legumes. Posso saber por que agora é diferente? Ele gosta do meu brigadeiro branco de panela. Ele gosta de almoçar no Subway e não liga de não ter batata chips no strogonoff de domingo. Acho que algo se perdeu aí. Esse algo é o meu amor, e o dele também. Não houve alianças, violinos, restaurante chique e motel no fim da noite. O pedido foi ali no carro mesmo, chegando à festa daquela tia chata dele que não gosta de mim. Foi quase uma piada quando ele disse: “Ei morena, vamos morar junto e matar essa velha de desgosto de uma vez por todas?”, mas foi sério. Foi sério sim porque eu ri e ele esperou a resposta. Quando o homem da nossa vida espera uma resposta dessas, a gente sente uma luzinha de felicidade difícil de explicar. Essa luzinha dá pulos dentro de nós como quem ganha na mega-sena acumulada. E quando eu disse “sim”, eu disse pro mundo inteiro ouvir. Eu era a mulher mais feliz do mundo porque o cara que eu amava queria me amar assim, todo dia. E nem pensamos em lavar o banheiro ou na dificuldade de dobrar panquecas. Até mesmo isso parecia ser fichinha perto da tia chata que nos esperava fora do carro. Não é contrato, não é conta-conjunto, nem filhos daqui 2 anos. É dividir a mesma cama, é voltar para casa achando que todos no metrô sabem que você é linda, feliz e mora com o amor da sua vida, só de olhar pra sua cara. É por isso gente! É por isso que eu estou indo para aquele apartamento de 2 quartos e cozinha vermelha. É pela felicidade! Seja ela feita de amor ou de panquecas mal-dobradas.