Para ler ouvindo: Come Pick Me Up – Ryan Adams 

Ele gosta de freqüentar aquele pequeno apartamento. Tinha o cheiro dela. A decoração improvisada possuía suas cores preferidas. Incrível como ela sempre escolhia o tom certo do verde. A TV sempre desligada, o cachorro dormindo em cima do sofá e o rádio ligado tocava a trilha sonora daquele amor doentio. A cozinha sempre suja com pacotes de comidas instantâneas espalhadas. O quarto bagunçado. Ah, como ele gostava daquele quarto bagunçado. Dos sutiãs pendurados nas maçanetas do armário, as maquiagens jogadas na escrivaninha e a cama com lençóis roxos. O cheiro era mais forte à medida que se aproximava daquela cama. Puxou o travesseiro, cheirou. Era do shampoo. Lembrou dos cabelos cumpridos dela jogados ali. Sempre macios, caiam levemente no seu ombro, ele perdia a cabeça lembrando dos fios. As noites nunca foram tão gostosas como quando deitava ali. Acordava sempre mais tarde e a via correndo para o trabalho, sempre atrasada. Arrumava-se como uma adolescente, ao terminar sempre ficava linda! E então, ele se apaixonava novamente. Sentia ciúmes, queria sempre sair junto, não via a hora de tirar sua roupa, saber que toda aquela produção era pra ele. Mas se continha. Perder aquela mulher era tudo o que ele menos queria. Como pôde? Como pôde ser tão imbecil?
Ouviu o barulho de chaves, provavelmente ela já estava na porta há alguns minutos. Sempre demorava em encontrar as chaves na bolsa. A porta abriu e o vento do inverno entrou. Ele sentiu. Sentiu um frio na barriga e seus olhos encheram de lágrimas. Luca, o cachorro, a recebeu primeiro. Ela largou a bolsa na sala e caminhou até a cozinha. Isso era comum, mas nunca demorou tanto como dessa vez. Os passos ameaçavam mais uma briga. Ela caminhou até o quarto e o encontrou. Chegou mais perto e observou ele segurando o travesseiro. Ele perdeu as palavras. O ensaio de frente para o espelho não adiantou nada. Desculpas agora não caberiam. Esticou a mão. Segurava algo.
– Esqueci de te entregar as chaves. – Disse com voz abafada.
Ela estava linda. Ah! Como estava linda! Os olhos brilhavam. O que ela fez? Passou lápis? Ela nunca passava. Sempre detestou. Mas agora ele a via pela primeira vez com os contornos pretos. Que sensação estranha não poder abraçá-la, beijá-la, sem nenhuma palavra. Jogar aquele casaco verde cinturado no chão, sentir sua pele macia seguindo os movimentos dele. Puxa, como ela era incrível! Luca estava sentado ao lado dela. Por alguns minutos desejou ser aquele labrador. Ela mantinha os lábios entreabertos, prontos para dizer algo. Mas não dizia nada. Sempre escolheu os momentos certos para falar. Era confusa, sempre confusa. Mantinha-o distante, ele sabia que era arriscado se apaixonar, mas não tinha como! Ela era diferente, fazia amor como ninguém. Ria como ninguém. Era irresponsável. Não assumia compromisso, era preciso tomar cuidado. Aqueles olhos verdes enganavam.
– Pode Ficar. – Ela disse. Ela finalmente disse tudo àquilo que ele sempre esperou ouvir. Olhou novamente para o travesseiro e soltou. Aquele amor era doentio!. Não poderia arriscar novamente. Era preciso respirar o perfume daquele apartamento pela última vez.
– Não. Acho melhor eu ir embora.
É. Ele teve coragem de abrir mão dela. Luca se retirou, desviando a atenção dos dois com o barulho da coleira. Os olhos do rapaz fotografavam cada ângulo do quarto. Todos os sons pareciam mais altos, ela mais bela e os cheiros mais fortes. Ele foi em direção à porta. Implorava silenciosamente em seus pensamentos por algum pedido de retorno. Mas não ouviu nada. Ela permanecia estática no quarto. Dessa vez, olhando para a cama. Pegou o travesseiro e também o cheirou lentamente. Luca agora estava na porta à espera de um carinho, como sempre. Tanto de quem entra, como de quem sai. O rapaz foi embora. Sabia que, ela ouviria do quarto o descer das escadas. O prédio era escuro e velho, no centro da cidade. Mas o apartamento dela possuía luz, cheiros, cores e um silêncio exaustante! A cada andar ele ia sentindo cada vez mais o frio rigoroso da estação. Ao sair do prédio, abaixou a cabeça e sentiu os olhos verdes dela o seguindo pela janela. Fora a última vez que a sentiu por perto.