A gente nem se conhece. Você sabe meu nome, sobrenome, faculdade, curso, turno. Todo dia, na mesma hora, de segunda à sexta você me vê. De vez em quando, duas vezes por dia. De vez em quando, correndo pra entrar no ônibus a tempo. Passamos no mínimo 40 minutos sentados lado a lado sem dizer uma palavra porque a gente nem se conhece. Você presenciou a ligação da minha primeira entrevista de emprego como jornalista e no dia seguinte, presenciou a ligação do meu primeiro contrato como jornalista. Eu sei que engasgou ali um “Parabéns” na sua garganta e formigou um abraço no meu braço, mas nos controlamos porque isso é coisa de quem se conhece. Sabe aquele dia que você encontrou um amigo e ficou vermelho porque ele falava alto coisas suas e você tentava dizer que era mentira porque sabia que eu estava ouvindo tudo? Eu ri virada para janela porque, afinal, a gente nem se conhece. Também sei seu nome, também sei seu curso e faculdade, também sei que você namora e gosta muito dela. E até prefiro assim, sabia? Prefiro saber o pouco a saber o demais e não gostar de você. Se bem que aquele dia que deu tudo errado, que me senti meio sozinha às 22h da noite voltando para casa e que o gordo do meu lado ocupava metade do meu banco, eu senti sua falta. Desejei de verdade levantar e ir lá trás sentar com você. Desejei desabafar e encostar a cabeça no seu ombro pra dormir. Ia ser bobeira né? Eu sei que ia porque o dia que te dei um sorriso você me lançou uma piscadinha tímida e tratou de sumir na multidão. Tudo bem, até por que… A gente nem se conhece mesmo.