O poeta da mesa ao lado disse que meus cabelos eram cachoeiras tropicais, me chamou de prosaica no seu blog e escreveu no jornal, pra todo mundo ver, que eu usava aparelho móvel nos dentes. Ele sabe que eu gosto de Mentos de uva e sempre ri quando eu digo isso ao comer um. O poeta não me segue no Twitter, mas visita a minha página e lê todo o meu monólogo virtual. Eu? É, eu sei disso tudo. É que a gente não esconde mais.
Outro dia eu o vi sorrindo e olhando pro meu pé. Quando eu estou inquieta fico rodando ele com o tornozelo, sabe? Aí me deu uma vontade de cutucar ele e dizer: “Eu sei, dá vontade de escrever né? Esses detalhes bobos da vida nos dão vontade de contar pra todo mundo, mesmo sem ter muito do que falar sobre eles”. A gente não esconde mais. Não esconde que se entende, mesmo sabendo que ninguém pode nos entender. Que brinca de decifrar os outros, mesmo que sabendo que ninguém é decifrável. E quando faz frio, ele já sabe que eu vou entrar na sala e dizer: “Nossa gente, ‘tá’ frio né?” como se ninguém soubesse. E quando eu converso com as minhas amigas, eu sei que ele está ouvindo tudo por mais baixinho que a gente fale. Mas eu não ligo, a gente não esconde mais e o poeta é fonte confiável.
Em dias de apresentação de trabalho, o poeta sempre surpreende com seu cérebro de biblioteca e repertório de dar inveja. Eu e o Marcos sempre ficamos aliviados por ter ele no grupo. Eu me pergunto como ele faz para ter tempo de ler tanta coisa, enquanto eu mal consigo parar para almoçar um cachorro-quente na esquina. É nessa parte do meu texto, quando eu digo uma coisa bem atrapalhada e feia da minha vida, que todo mundo ri. Enquanto no texto do poeta, todo mundo acha tudo bonito e sereno. Um pouco parecido com o todo-dia: o sereno e a atrapalhada, o calmo e a hiperativa. Então fica todo mundo lendo os dois pra ver se descobre alguma coisa. Se um dia um vai escrever, e o outro vai responder. Coitados, mal sabem eles… que a gente não esconde mais.