Enfiei a blusa na cara pra conter o choro. “Não! Eu não quero descer pra jantar!”. E também não queria que a minha mãe tivesse aparecido assim, tão boa e caridosa pra me perguntar por que eu estava daquele jeito. Isso, da mãe boa aparecer pra acudir a filha dramática, só deixa a gente com mais vontade ainda de continuar a chorar. Tentei explicar, mas não consegui. Nem eu sabia como começou a choradeira. É a conta do banco, é a falta de um homem, a saudade do outro, a sensação de ser ridícula perto de tanta gente cool e bonita. São as dúvidas, os Kg na balança, os preços e os vazios sem explicação que aumentam, aumentam e aumentam. Não! Não é TPM, mau-humor, falta de sexo. É aquilo que na correria do dia-a-dia a gente acaba deixando de lado. Deixa pra sentir depois, que é pra não perder tempo. A gente só esquece que um dia isso tudo chega, chega sem você nem perceber. O fio do fone rachou, o salário atrasou, a chefe brigou, o cara não ligou e a bendita calça não entrou. Então ouvi um “não” e chorei, porque eu só precisava de um “sim” pra empurrar a diante, por mais um dia, tudo que me incomodava. Voltaram as chateações pequenas e o ponto de interrogação suspenso. No fim das contas, eu enfiei a blusa na cara foi pela vergonha de dizer que acho os meus problemas os piores do mundo, sabendo que não são. E de dizer para a mulher ali sentada na minha cama, que o choro é coisa da mulher-boba que, às vezes, quer o mundo todo de mão-beijada só pra ela.