Desisti de achar o mundo chato, bobo e feio. De procurar na palavra dos outros, as minhas. Depois que todo mundo viu que eu escrevia, eu desisti. Ontem rabisquei minha história como se não fosse minha. Terminei com o arquiteto boa-praça só para poder escrever. É que me deu uma saudade de sofrer de amor, sabe? O coitado ficou sem entender, e sem me ler… Então eu desisti. Desisti de escrever. Li uma poesia colada no vidro do ônibus quando voltava da Lagoa. Sonhei em fazer igual e logo em seguida des-sonhei. A menina no banco da frente alertou: “Por que quem escreve nunca ama?”. Não amo, repeti. Eu não amo porque um dia inventei um sonho de ser escritora. E lá, na hora do visto final, na terra dos sonhos, junto com outros milhões de jogadores de futebol, médicos e advogados, eu simplesmente hesitei e exclamei: “Não! Eu não quero não!”. Eu quero amar, mas não quero só isso. Pois todo poeta ama demais, mas ama demais sozinho. Cadê alguém pra amar comigo? Pus o anúncio: Troco cadernos rabiscados por lençóis amassados. Ninguém viu, ninguém ligou e nem pediu pra ver o estado dos cadernos. Ninguém troca amor, ninguém troca poesia. Não há devolução nem garantia. Sobrei. Sobrei no mundo quando decidi não mais escrever, para amar. Fiquei sem amor e sem nenhuma companhia.