Ela era inatingível. Era misteriosa e inatingível. Sorria um sorriso sincero que te deixava a sonhar durante a reunião com aquele deputado. Ela era simpática e você a via sendo assim com todo mundo, menos com você. Ela saia quando você chegava, se ocupava quando você procrastinava. Tomava chá gelado na sala, enquanto você enrolava no café para ver se a encontrava. Desfilava conversas com seu chefe na frente da sua sala de vidro. Você, se sentindo dentro de um aquário, reclamava não poder ouvir o que se passava no corredor. Ela não foi na festa do final de ano da empresa e ninguém soube te dizer o porquê. Deu raiva, não deu? Deu vontade de puxá-la pelo cabelo aquele dia no elevador e dizer que ela era sim, a mulher mais suspeita daquele escritório. Suspeita pra te fazer negar toda a postura cafageste, que você tanto demorou para aperfeiçoar. Ela não podia te desafiar desse jeito, não podia passar pela sua sala sem espiar, isso não era regra do jogo. E ela fez. Ela ignorou todas as suas imposições. Não, ela jamais te pediria grampos emprestados, nem imprimiria “sem querer” na sua impressora. Ela jamais bateria na sua porta e jamais ligaria para o seu ramal. Ela te fez odiá-la. E você odiou. E você odiou tanto que quis amá-la. Amar dentro da sua sala laranja com luz fraca. Mas ela não deixou. Ela, essa mulher inatingível que eu tenho dentro de mim.