Quando eu tiver um filho, eu quero que ele seja um filho da puta. Assim, bem claro, no sentido figurado, um fi-lho-da-pu-ta. Um desses que a gente encontra na vida, sem qualquer escrúpulos. Pois o filho da puta sempre tem lugar no ônibus, enquanto os bonzinhos se arrebentam em pé, cheios de pastas, só para dar lugar à uma senhora. O filho da puta não liga se o chefe vai gritar e reclamar do seu trabalho, ele simplesmente vai permanecer fazendo a mesma coisa, não vai buscar evoluir. O filho da puta sabe, que quanto mais ele busca agradar, menos ele consegue. Enquanto isso o bonzinho se desfaz pela vida aos poucos, dando um pedaço dele para cada um que pede um teco. Meu filho, um grande filho da puta, ficará intacto, inatingível, sem qualquer ferida no amor-próprio. Não posso falhar, não posso fazer com que ele veja o outro lado da vida, uma toda feita de sonhos que nunca se realizam. O bonzinho fica doente pra sempre, se degladiando com dúvidas eternas dentro do peito, na única tentativa de ser feliz. Coitado, ele não sabe que ser educado com o telemarketing não nos leva a lugar algum. Não sabe que é feio dizer não às propostas sujas dos colarinhos mal lavados. O filho da puta termina a vida numa mesa de madeira, enquanto o bonzinho termina a sua numa mesa de plástico e ainda assim permanece sonhando, colocando uma foto da amada ao lado das pastas, colocando um pouco de vida ao lado dos papeis mortos. O filho da puta reconhece pastas como escorregadores e notas como degraus. Meu filho então, será um mestre na filha da putagem, se tornará cada vez mais cego, para jamais olhar o que é bom de imaginar e feio de ver. Para não ver, o que eu vejo.