Ela pensou. Abriu a porta da geladeira, pegou o pote de Philadelphia, fechou e disse: “Quero ver você dar conta de tudo isso”.

Ela está certa. Quando estou insatisfeita com a vida, com a faculdade, com os serviços, com as palavras e a tal da arte que só sei admirar e nada de produzir, invento maneiras de me ocupar. Ocupar o cérebro que algumas vezes cansa de tomar banho para lavar a alma, não mais para somente lavar o corpo e os cabelos cumpridos. Deu que inventei de prestar vestibular para cinema, como fiz há alguns anos atrás e não obtive bons resultados. Achei que ia ser bom, ia ser legal, ia ser um puta desafio. Faculdade, livros da faculdade, curso de inglês, livros do curso de inglês, espanhol em casa para não esquecer, livros e revistas em espanhol para ler em voz alta com sotaque bagunçado, trabalho, canseira do trabalho. Era uma semana bastante cheia, mesmo assim eu ainda estava buscando mais tarefa. Quem sabe? Eu sei. Eu sei que nas horas que eu me sinto uma barata tonta, trocando de turmas nos corredores de jornalismo até achar uma matéria que me estimule, dou na telha de ser outra coisa. Fora outras maluquices que procuro fazer todos os dias para manter a cabeça em atividade. Uma enorme roda-gigante em atividade, que busca espaço pra girar em seu ritmo acelerado. Tem dias que pareço repetir o ritmo do clássico Trem de Ferro do Tom e do Bandeira. Isso é normal?

“Sofia, por que você não faz uma pergunta mais fácil?” ela fala com a boca cheia do biscoito com cream cheese.