O trânsito estava insuportável como as clássicas 18h nos concedem diariamente, o taxista não parava de olhar pra mim pelo retrovisor e a minha vontade de tomar café me lembrava do quão valioso era, para mim, ter dentes brancos. Fiquei a tarde toda entrevistando atletas e estava mais cansada que o Hércules depois dos seus 12 trabalhos, queria mesmo era chegar em casa e ligar para o… Pra quem mesmo?

Pra ninguém. Eu podia ligar pro vizinho que sempre me convida pra sair e com quem eu me diverti algumas vezes, mas não. Podia ligar também pro surfista metido que faz uma massagem divina, mas… não. Aí o telefone começa a tocar e eu desligo só de ver quem é o infeliz que está atrapalhando minha listagem de companhias da noite. Nessa hora despenca um pensamento: Sou feliz sozinha. Nos últimos dias penei em manter relacionamentos só para dizer que estava com alguém. Nem mesmo tenho muito que escrever por não haver mais a “intensidade verdadeira”, como diria um amigo meu – também caso antigo e um dos últimos pelos quais senti a barriga formigar saudade. Só me veio à cabeça homens que chegaram e foram embora sem fazer a mínima cócega no coração. O vento forte, que a janela do taxi entreaberta proporcionava, arejava a minha cabeça cheia de dúvidas até em casa.

À noite o filme acabou e eu continuei sentada no escuro, como sempre faço. Imaginando como a minha vida poderia mudar para se encaixar um pouco mais numa tela de cinema. Praguejei pelo homem charmoso, macho, inteligente e compreensível não ter aparecido para mim até hoje. Mas continuei ali e percebi que, apesar das frustradas comparações com a vida real, preferia sonhar vendo um filme a passar a cansada noite de sexta-feira embaixo de luzes coloridas frenéticas. Percebi também que tinha preguiça de estar nesse momento com alguém, pois esse alguém com certeza já teria acendido as luzes e levado as taças de vinho para a cozinha. Esse alguém teria a minha atenção mais do que gostaria de dar, pois quem mais precisa da minha atenção nesses momentos pós-filmes e pós-taxis que mexem com a gente, sou eu mesma.