Ele gostava de me encontrar no corredor do trabalho logo de manhã porque dizia que minha boca tinha gosto de adoçante. Era o café que eu tomava logo cedo para acordar do sonho que ainda não tinha sido interrompido. Coisa de gente nova, confundir o sonho do dia com o da noite, confudir o sonho da noite com o do dia. Misturar tudo e não lembrar mais o que é realidade. Ele gostava disso e do meu sorriso eterno. Anos depois meu sorriso cairia no esquecimento, poderia ser visto com muito esforço no escuro do cinema. É que eu sempre gostei de quando as luzes do cinema apagam lentamente, isso sempre me deu um frio na barriga, como quem diz adeus à própria vida para viver a vida de quem está na tela. Ele e eu optamos por uma casa sossegada, um emprego sossegado, uma rede para descansar e uma filha para amar. Só esquecemos de um amor sereno para levar. Era assim nosso tempo juntos, uma brincadeira de não olhar pela janela pra não ver o mundo lá fora.
O mundo lá fora não tem gosto de adoçante.