Eu tinha dormido só 3h e já estava de pé para me encontrar com o Patrick, amigo meu de faculdade e responsável por grande parte dessa história toda. Abri a porta da garagem e vi ali, bem no fundo, atrás de várias tranqueiras, a Donzela de Ferro. É, esse é o nome da minha bicicleta. Ela era a fiel companheira do meu irmão, até ser trocada por uma Caloi Supra. Então lá fui eu socorrer a Donzela. Sai de casa toda torta, com pneu murcho, andando em zig-zag e torcendo pra nenhum ônibus passar por cima de mim. Quando eu já estava morta, cansada, pedindo arrego e copo d’água, começou a bicicletada.
A bicicletada é um movimento organizado e comprometido com a sustentabilidade, com a troca do carro pela bicicleta, com um mundo mais ecologicamente correto para se viver. Admito que já conhecia a bicicletada há 3 anos, mas meu ativismo entrou em conflito com a minha preguiça e nunca participei. Dessa vez precisei de um motivo maior: meu compromisso com a fotografia.

Foto: Sofia Ricciardi Jorge

Eu, munida de uma Nikon D60 e uma objetiva 300mm, comecei o passeio toda atrapalhada (para variar), mas cheia de fotos boas. Isso era possível porque lá estava cheio de gente sorridente, cheios de ideias, cheios de experiências pra trocar, pedalando, conversando, ouvindo música ou gritando por menos carros. O clima era bom e as pessoas também. Estávamos acompanhados da figura carimbada do Plá, músico genial aqui de Curitiba e queridinho dos adolescentes freqüentadores do centro. Para completar, tínhamos entre nós 2 colombianos que me contaram que lá na América Central também tem bicicletada, também tem gente querendo mudar o mundo em duas rodas.
O resto do passeio foi recheado de surpresas, uma atrás da outra. Seja pela quantidade de pessoas que parava, cumprimentava, apoiava, gritava, ou pela quantidade de carro que não obedecia, não respeitava, ameaçava e brigava. Contudo, a maior das surpresas foi perceber que mesmo diante de uma cidade tão grande, com seus mares de carros, motos e toda a impaciência que o trânsito caótico nos sugere, os ciclistas permaneceram com a serenidade com a qual iniciaram a manhã e estacionaram suas Donzelas de Ferro na Praça Santos Andrade, no centro da cidade, para praticar Yoga ali mesmo, descalços, com um monte de gente indo e vindo apressada para o trabalho. Essa paz, essa paciência com o mundo, é uma coisa que eu nunca havia sentido.

Foto: Sofia Ricciardi Jorge

Depois de registrar esses momentos, de ficar apaixonada pela Manuela, uma criança que acompanha seu pai em todas as bicicletadas, de entender que aqueles ciclistas não ligam para o que nós jornalistas, com toda a nossa mania de estatística, chamamos de minoria e maioria, pois todos ali estão cumprindo o tal do “fazer sua parte”, entendi que aquele movimento nada mais é que uma compreensão coletiva do que é o primeiro passo.

Olhei pra Donzela de Ferro e disse “Nunca mais te deixo naquela tranqueira de garagem”.