Aquele dia ele não queria ir embora, mas foi. Essa talvez tenha sido a coisa certa a fazer. Ele foi embora de novo ontem, nem sei se queria. Outra escolha certa. O vazio que ficou do meu lado cutucou meu ombro e sussurrou no ouvido “Alguém já fez isso com você?” e eu tive vontade de sair correndo pela escada e gritar para ele me esperar. Que foi? Esqueci alguma coisa? Esqueceu. Esqueceu que eu sorri muito quando a gente se conheceu. E quando uma mulher sorri muito, é porque ela quer desviar a atenção do que está escrito na testa: “Gostei de você”. Gostei e nem sei bem o porquê. Nem tem nada de mais, só um rosto três vezes mais bonito do que o cara do filme de ontem. Nada além disso. Nenhuma marrentisse, nenhum indício de homem cult-moderno, nenhum papo além de 30 minutos. Mas sabe o que é? Sou boa em alimentar a sensação de ser de alguém. É por isso que você fez bem em ir embora. É por isso que você sempre faz bem quando resolve ir. Me deixar sozinha é me entregar a notícia de que até então eu só estava sonhando.