Eu não sou de São Paulo, Felipe também não e muito menos a nossa história começa lá. Na verdade, nós nos conhecemos em Curitiba e lá passamos a maior parte da nossa amizade e do nosso namoro. O que acontece em São Paulo é justamente o fim de todo o começo. Eu, Felipe e a cidade que nos desmontou em partes de amor jogadas por aí. Mas calma, não é preciso ter medo de ler este conto. É mesmo raro encontrar uma história de amor torta assim. Simplesmente porque a gente se assusta quando se depara com aquilo que se aproxima do real.

Essa é uma história real
De um amor real.


Foto de akaitori.

Felipe é músico, um músico de variadas formas: maracatu, maxixe, choro e bossa nova. Eu brinco de ser escritora, uma escritora que pensa mais do que escreve. Conhecemos-nos em um bar perto do Museu Oscar Niemeyer, ainda estava claro e quente. Depois de algumas cervejas geladas para espantar o calor, passei a acompanhar o violão dele com os ombros. De forma ritmada, chamei a atenção. Alguns meses depois Felipe veio a me falar que olhou para a minha dança e observou quem eu estava a acompanhar de forma quase descompassada, ele. Diante de seus companheiros de palco, eram as suas cordas que me levaram a gingar. Então se aventurou a me procurar depois do show.

Felipe virou texto em meus cadernos,
Virou explosões no peito e borboletas na barriga.
Felipe fez meus ombros dançarem por mais três anos depois.

Construímos um amor a sete chaves. Sabíamos que nosso namoro era algo singular e não queríamos perde-lo por nada. Aconteceu que, perdidos em tanta fantasia romântica, esquecemos que a vida toma rumos e não vive somente de noites na cama. Regada de amor, escrevi um livro e publiquei sem pretensão. O editor-chefe de uma revista feminina gostou e me chamou para trabalhar com a sua equipe em São Paulo. Hesitei, mas aceitei. Pedi para Felipe que me acompanhasse e como um bom namorado e amigo, assim ele fez. Felipe largou sua banda, largou a MPB paranaense e foi procurar emprego em São Paulo.

Achamos um apartamento
Fizemos dele nosso lar
Pequeno de parede
Grande de paixão

Uma moça que Felipe conheceu no Museu de Arte Moderna o convidou para tocar em sua banda. Felipe aceitou, gostou, ensaiou muito, ensaiou noites e, meses depois, ganharam um concurso de música brasileira. A ligação com a notícia, veio por volta das 23h, enquanto eu ainda estava presa na redação e não dei suficiente atenção à conquista. Nessa noite, o bar escolhido para a comemoração estava cheio e quente. As cervejas geladas que Felipe tomou o fizeram bater os pés no chão de forma ritmada.

Felipe ritmou-os acompanhando a voz da moça
Felipe se embalou na dança de seus quadris,
Chamou-a para dançar,
Chamou-a para beijar.

No dia seguinte, sinto um enorme vazio no peito dele. Vejo que seu rosto carrega mais que uma ressaca. Seus olhos carregam um peso além das sobrancelhas e, de repente, passam a ficar marejados. Abraço Felipe e passo a compreender nosso erro. Percebo que nos esquecemos de levar nosso amor junto à vida. Embalamo-nos pelos nossos mundos. Perdi-me em linhas de artigos, ele perdeu-se em notas musicais.

Houve esforço para curar as feridas,
Houve mais música, mais textos,
Mas dessa vez… Houve mais companhia.