“Eu não ia dizer nada, mas não consegui parar de pensar enquanto coava o café. Sofia, ontem você dormiu inteira enxarcada de lágrimas na minha cama. Chegou aqui, um pouco bêbada, pedindo para ficar e eu não tive como dizer não. Se eu pensar bem agora, eu devia ter dito. O que realmente foi inevitável era te olhar dormindo. Sofia, você tinha cheiro de mágoa e olhos borrados de tinta preta da maquiagem. O que foi que aconteceu? O único pedido foi para não te deixar sozinha. Eu não deixei, deixei? Eu fiquei aqui do seu lado o tempo todo, mesmo sem saber o que exatamente estava acontecendo e porquê você escolheu a minha casa, a minha cama para passar a noite. Achei que hoje de manhã tudo estaria bem, eu iria levantar, deixar a chave com você e ir trabalhar. Mas não está dando, estou com medo de voltar e não te ver mais aqui. Fica, mesmo que tenha a chave, mesmo que tenha só esse vestido, mesmo que tenha só você e essa televisão meio velha na sala.

Sofia, eu estou tomando meu café pertubado com o seu corpo na cama.
Por favor, me ligue quando acordar e ler esse bilhete.
Beijos e Bom dia

Obs:
Tem geléia de uva na geladeira, eu sei que você gosta.”