Eu estou escrevendo e batendo forte no teclado. Nas horas que paro para pensar, batuco na mesa a nova música do Bob Dylan que começou no rádio. Estou resfriada, então puxo com força o ar com o nariz entupido. São muitos barulhos – penso. Mas a minha casa continua vazia e silenciosa. Nem com tudo que faço consigo superar esse silêncio tão grande dentro de mim. Ironicamente o celular toca, quebrando a linha de raciocínio e esquentando o meu peito. É você, o seu nome na tela, fazendo meu coração bater tão forte que até penso poder escutar. Tão forte que nenhum silêncio mais existe.  Como é violento você existir. Atendo.

São três horas da manhã e tudo que conversamos são amenidades raras. É difícil entender que não existe mais um cotidiano acompanhado. As manias ainda seguem e as lembranças nunca falham. Desligo e penso melhor no que somos todos nós por dentro. Um conjunto de indivíduos que pede, implora, se joga no mundo por algo que nos complete. Enquanto isso, balões se desprendem de mãos infantis, taças quebram em esbarrões, prazos espiram na pequena agência de telhado cinza. A velocidade eterna do mundo lá fora grita, ignorada pelos nossos olhos que buscam outra direção, se não a janela.

Somos assim querido, temos dentro de nós uma multidão silenciada por nossas ambições.